Resenha | Memorial do Convento – José Saramago

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O rei D. João V e a rainha D. Maria Ana anseiam por filhos, para que se cumpram os deveres de sucessão real. O rei de Portugal, D. João V, faz a promessa a um frei franciscano com fama de virtuoso que mandará construir um convento em Mafra, após lhe ser revelado que essa era a vontade e condição divina para a realização do “milagre”. A promessa é oficializada com o prazo de um ano para que a gravidez ocorresse, e pouco tempo depois descobre a rainha estar esperando um filho

A narrativa é tomada pela presença de Baltasar Mateus, homem humilde, soldado dispensado da guerra de sucessão espanhola, que caminha até Lisboa na esperança de receber uma pensão por danos de guerra. Logo que chega à cidade, encanta-se pela jovem Blimunda, moça vidente que vê a vontade das pessoas e perdeu a mãe pelo castigo dado pelo Tribunal da Santa Inquisição, que queimou a mulher na fogueira. Relacionaram-se com o auxílio do padre Bartolomeu, amigo da família.

Com uma narrativa sensacional que combina ficção, referências históricas e crítica à sociedade, a igreja e a hipocrisia religiosa, a obra Memorial do convento, de José Saramago, se passa em Portugal no século XVIII, e nos apresenta a vida e o romance peculiar do casal Baltasar Sete-Sóis e Blimunda Sete-Luas, além de um padre que tinha o ousado sonho de voar e a construção de um convento na cidade de Mafra.

“Assim maltratadas as carnes, alimentadas de magro, parece que se haveriam de recolher as insatisfações até à libertação pascal e que as solicitações da natureza poderiam esperar que se limpassem as sombras do rosto da Santa Madre Igreja, agora que se aproximam Paixão e Morte. Mas talvez que a riqueza fosfórica do peixe atice o sangue, talvez que o costume de deixar que as mulheres corram as igrejas sozinhas na Quaresma, contra o uso do resto do ano, que é tê-las em casa presas, salvo se são populares com porta para a rua ou nesta vivendo, tão presas aquelas que se diz saírem, se são de nobre extracção, para ir à igreja somente, e apenas três vezes na vida, a ser baptizada, a ser casada, a ser sepultada, para o resto lá está a capela da casa, talvez que o dito costume mostre, afinal, quanto é insuportável a Quaresma, que todo o tempo quaresmal é tempo de morte antecipada, aviso que devemos aproveitar, e então, cuidando os homens, ou fingindo cuidar, que as mulheres não fazem mais que as devoções a que disseram ir, é a mulher livre uma vez no ano, e se não vai sozinha por não o consentir a decência pública, quem a acompanha leva iguais desejos e igual necessidade de satisfazê-los, por isso a mulher, entre duas igrejas, foi a encontrar-se com um homem, qual seja, e a criada que a guarda troca uma cumplicidade por outra, e ambas, quando se reencontram diante do próximo altar, sabem que a Quaresma não existe e o mundo está felizmente louco desde que nasceu. ” (Saramago, 2000, Ed. Bertrand Brasil, p. 30)

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No dia de uma procissão de condenados pelo Santo Ofício, conhece a jovem Blimunda, que repentinamente lhe pergunta o nome após indicar sua mãe que passava no meio da multidão, condenada pois dizia ter visões e revelações. É também apresentado ao padre Bartolomeu Lourenço, que acompanhava a moça e era amigo de sua mãe; no mesmo dia o padre os declara casados em uma cerimônia não oficial.

Após levar Sete-Sóis à abegoaria onde tem a permissão do rei para realizar a construção de sua máquina voadora, Bartolomeu lhe pergunta se por acaso não estaria interessado em ajudar na confecção do invento. É ali que Blimunda e o marido vivem durante um tempo, até que o padre precisa fazer uma viagem em busca de conhecimentos sobre a alquimia, necessária para que a passarola pudesse voar. O casal então se muda para Mafra. Eles voltam a se encontrar com o padre, com quem vivem uma enorme aventura e também tragédia; ao retornarem a Mafra, Sete-Sóis começa a trabalhar na construção do convento.

Com um desfecho emocionante e que em nada deixa a desejar, José Saramago nos presenteia com uma obra riquíssima em detalhes, personagens marcantes, um cenário totalmente característico da época em que se passa a história, e um notável estilo de linguagem.

As falas das personagens destacadas apenas através de vírgulas, e os parágrafos que podem durar mais de duas páginas sem um único ponto final, são “detalhes” nessa obra de Saramago que podem até assustar leitores acostumados com autores que não saem da zona de conforto e livros que não chamam a atenção no quesito autenticidade narrativa; contudo, aqueles que possuem a mente aberta para analisar, apreciar e se impressionar com uma obra memorável, definitivamente vivenciarão uma experiência incrível com Memorial do convento.

Inocentes, os dois são como anjos sem asas, ou como deveriam ter sido o Adão e Eva do começo dos tempos, sem a culpa do pecado original.

Na base dos sonhos de grandeza do padre e do rei, ou dos sonhos de amor dos sempre leais Balthasar e Blimunda, gravita toda uma arraia miúda que nas obras de Saramago assume a cena como protagonista. A capacidade do autor de dar voz a personagens simples, tornando a rudeza do homem do campo em poesia, é proporcional à sua capacidade de criar diálogos filosóficos de grande profundidade e beleza.

Só um autor como José Saramago consegue a proeza de tornar um rei em coadjuvante de uma história de amor entre uma mulher capaz de enxergar as pessoas por dentro e de um soldado maneta em busca de apaziguar o coração cansado de guerra.

O Portugal barroco, a obra do convento de Mafra, a vida indolente da corte, e a loucura (genialidade?!) de Bartolomeu de Gusmão são o cenário do grande palco da vida onde o casal protagonista passeia e encena seu drama. Memorial do Convento me lembra um cordel, consigo até ouvir a voz cadenciada de um cordelista contando “a história do amor da encantadora feiticeira de Lisboa com o soldado de Mafra”. Daí a referência a Suassuna.

A cumplicidade entre Balthasar e Blimunda, como homem e mulher e como seres humanos, é uma utopia só possível nos livros. Mas, uma vez chegando ao final da obra, fica uma esperança mínima, lá no fundo da alma (ou da vontade humana, como bem nomeia o padre Bartolomeu) de que todas as histórias de amor sejam eternas não como a de Romeu e Julieta, mas como essa do sol e da lua.

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Referencias:

mardehistorias.wordpress.com/2010/07/24/resenha-memorial-do-convento/
juliescreveu.com.br/resenha-memorial-do-convento-jose-saramago/
educacao.globo.com/literatura/assunto/resumos-de-livros/memorial-do-convento.html

 

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