Desafio| Literatura nacional – Livros Escritos por brasileiros para Ler em 2016

desafio - literatura brasileira.jpgChico Buarque e Augusto Cury são os dois únicos escritores brasileiros entre os 20 mais vendidos na categoria ficção em 2015.

Ao olhar a lista, nota-se a quase hegemonia de romances “água com açúcar” e literatura erótica. Gayle Forman, John Green e E.L. James reinam soberanos na leitura dos brasileiros, hábito este que sempre é posto à prova.

Que o brasileiro leia cada vez mais, independente de qual literatura, mas este post, sobretudo, enfatiza a literatura produzida no País. Lançei um desafio a mim mesmo para este ano de 2016 e achei legal a ideia de compartilhar com vocês como um desafio “12 meses”, um livro para cada mês. Atrasei um pouco o post, deu trabalho esolher somente 12, mas ainda está valendo. 😀

A seleção foi feita com base em premiações e na minha opinião. Eles não estão em ordem alguma, e certamente não são os únicos romances que merecem ser lidos. Tome a lista como uma bússola da produção literária neste século e boa viagem!

‘O homem: A vida, a ciência e a arte’ de Ernest Hello

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“Os trabalhos que compõem este volume tendem todos ao mesmo objetivo, mas por vias diferentes. Inspirados por um sopro único, basta que sigam esse sopro para encontrar seu lugar, e é a esse sopro que os abandono. Esse lugar, é a Unidade. A Unidade que é o sinete do Verdadeiro, do Belo e do Bem, impresso em cada talo de erva e em cada esfera celeste.

[…] Este livro é um essencialmente e diverso acidentalmente. Sua unidade consiste em apresentar sempre as aplicações da mesma Verdade, e em buscar, na vida, na ciência, na arte, seus reflexos e símbolos. Procurei mostrar a vida, a ciência e a arte como três espelhos em que se refete a mesma face, como três galhos da mesma árvore, como três artigos da mesma lei”.


 ‘Cinzas do Norte’, de Milton Hatoum

3156878Terceiro romance de Milton Hatoum, é o relato de uma longa revolta e do esforço de compreendê-la. Na Manaus dos anos 1950 e 1960, dois meninos travam uma amizade que atravessará toda a vida.  No centro das ambições de Trajano está a Vila Amazônia, palacete junto a Parintins, sede de uma plantação de juta e pesadelo máximo de Mundo. A fim de realizar suas inclinações artísticas, ou quem sabe para investigar suas angústias mais profundas, o jovem engalfinha-se numa luta contra o pai, a província, a moral dominante e, para culminar, os militares que tomam o poder em 1964 e dão início à vertiginosa destruição de Manaus. Nessa luta que se transforma em fuga rebelde, o rapaz amplia o universo romanesco, que alcança a Berlim e a Londres irrequietas da década de 1970, de onde manda sinais de vida para o amigo Lavo, agora advogado, mas ainda preso à cidade natal. Outros fios completam o tecido ficcional de Cinzas do Norte: uma carta que o tio Ranulfo envia a Mundo, uma outra que este deixa como legado para o amigo de infância. São versões e revelações que se cruzam ou desencontram, sem jamais chegar a esgotar o enigma de uma vida singular ou a diminuir a dor da derrota final, às mãos da doença, da solidão e da violência. Neste livro, Hatoum escreve uma “história moral” de sua geração


‘K. – Relato de uma Busca’, de Bernardo Kucinski

k-404x690Mais do que um romance, K. – Relato de uma busca é uma reflexão sobre o hábito que os brasileiros têm de passar por cima das tragédias e homenagear facínoras. O Brasil é um país no qual generais que matavam e torturavam são homenageados dando seus nomes a ruas e avenidas. Os brasileiros têm o estranho hábito de homenagear bandidos, torturadores e golpistas.

O romance do jornalista Bernardo Kucinski narra a história de um pai em busca da filha que desapareceu, como tantos outros, durante a ditadura no Brasil. A narrativa de Kucinski é feita de capítulos quase independentes, apresentando vários ângulos de uma mesma história – a história da ausência e da impunidade.


‘Se Eu Fechar Os Olhos Agora’, de Edney Silvestre

926a1a2a-5806-498a-aa3f-84148d87e660Numa pequena cidade da antiga zona do café fluminense, em abril de 1961, dois meninos de 12 anos encontram o corpo de uma linda mulher, que foi morta e mutilada, às margens de um lago onde vão fazer gazeta. Eles não aceitam a explicação oficial do crime, segundo a qual o culpado seria o marido, o dentista da cidadezinha, motivado por ciúme. Começam uma investigação, à qual se une um velho misterioso, ex-preso político da ditadura Vargas. Dele, ouvem um aviso que marca o começo de um turbilhão de acontecimentos: “Nada neste país é o que parece.”

“A partir desta macabra descoberta, que mudará para sempre suas vidas, Edney Silvestre autopsia, com a fina sensibilidade de um raro prosador, a essência da nossa sociedade. O corpo de Anita, a morta, transubstanciado no corpo do Brasil.” — Luiz Ruffato


‘Nove Noites’, de Bernardo Carvalho

nove_noites_bernardo_de_carvalhoNove noites narra a descida ao coração das trevas empreendida pelo jovem expoente da antropologia americana, colega de Lévi-Strauss e aluno dileto de Ruth Benedict, às vésperas da Segunda Guerra. A história é contada em dois tempos, na tribo dos índios krahô (interior do sertão brasileiro) e na combinação progressiva entre a busca pelo testamento do engenheiro e a pesquisa que o narrador vai fazendo em arquivos, atrás das cartas do antropólogo e dos que o conheceram na época.
Para escrever o livro, Bernardo Carvalho travou contato com os Krahô, no Estado do Tocantins, e foi aos Estados Unidos em busca de documentos e pessoas que pudessem saber algo sobre o antropólogo.
A história de Buell Quain revela as contradições e os desejos de um homem sozinho numa terra estranha, confrontado com os seus próprios limites e com a alteridade mais absoluta, numa narrativa que faz referências aos romances de Joseph Conrad e aos relatos do escritor inglês Bruce Chatwin.


‘Sinfonia em Branco’, de Adriana Lisboa

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Com passagens de grande força poética, Adriana Lisboa narra, numa sequência não cronológica, a história destas irmãs. Clarice, a mais velha, sempre esteve fadada a se casar com o filho do dono da fazenda vizinha, enquanto Maria Inês, a mais nova, acaba por se tornar testemunha pueril e estarrecida de um abuso que dilaceraria a vida da irmã.

“No romance Sinfonia em branco, Adriana Lisboa arrecada as forças narrativas com singular mestria. Dá curso a um talento literário que enseja a cada página refinado jogo ilusório, pronto a envolver o leitor.” – Nélida Piñon


‘Manual da Paixão Solitária’, de Moacyr Scliar

51-manualdapaix25c325a3osolit25c325a1riaO capítulo 38 do Livro do Gênesis conta a estranha história do patriarca Judá, de seus três filhos Er, Onan e Shelá, e da jovem e bela Tamar, que se envolveu com todos eles. É sobre essa história que se debruça um grupo de especialistas em estudos bíblicos, em seu congresso anual, para tratar de entender um pouco melhor aqueles tempos e costumes que fundaram os nossos. Um historiador consagrado e uma antiga aluna, antagonistas desde sempre, são os principais oradores. Seus relatos darão vida a uma história de paixões e desejo que acabará por envolvê-los, também, em sua trama.
Depois de A mulher que escreveu a Bíblia eOs vendilhões do Templo, Moacyr Scliar retoma um relato bíblico para contá-lo a partir de um ponto de vista surpreendente, engraçado e provocador. Uma história narrada com imaginação, compaixão e humor, explorando os aspectos tragicômicos dessa trama insólita, associando-a inclusive à conjuntura do mundo em que vivemos e mostrando a permanência dos grandes temas da condição humana.


‘Vozes do Deserto’, de Nélida Piñon

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‘Vozes do Deserto’, romance da escritora Nélida Piñon, recria a história da princesa Xerezade que, para não ser morta pelo califa, inventa histórias que resultaram na saga das ‘Mil e Uma Noites’. Nélida pesquisou por cinco anos a cultura árabe através do Corão, da história e da mitologia dos povos do Islã. O resultado é um livro sensível e envolvente, que mostra a mulher a um só tempo forte e sensível escondida por um véu muçulmano.


‘Deixe o Quarto Como Está’, de Amilcar Bettega Barbosa

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O gênero fantástico no Brasil, cujo ápice pertence aos anos 70, nas veredas icônicas do mineiro Murilo Rubião e do goiano J. J. Veiga, avigora-se nessa coletânea de contos estupendos. Com assombroso engenho para conformar personagens que povoam o cotidiano que nos abraça, o autor os confronta com o inesperado, o insólito, o absurdo que age furtivamente sem deformar as hastes que constituem a normalidade, criando uma nova realidade regida pela lógica (ou a falta desta) do mundo redesenhado. Ao fim do livro, é inescapável ao leitor idear qual animal se hospeda nas suas costas.

 


‘Pó de Parede’, de Carol Bensimon

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Celebrada pelo romance “Sinuca Embaixo D’água”, a literatura de Carol Bensimon apresenta, nessa debutante seleta de contos, o motor-temático que embalará suas narrativas: o processo de formação (que também é o de autoconciliação) resultante de um trauma. Nos três contos de longo fôlego, personagens tentam lidar com o amadurecimento instalado com brusquidão, produzindo efeitos que constituem um sentido de unidade ao fim do livro. “A caixa” é um dos melhores contos da literatura brasileira.


‘A Passagem Tensa dos Corpos’, de Carlos de Brito e Mello

a-passagem-tensa-dos-corpos-de-carlos-de-brito-e-melloNesse romance em que o estranhamento é a clave para o encanto, acompanhamos um narrador espectral que transita por cidades mineiras coletando registros de morte, enquanto não consegue refazer-se carne. Durante essa passagem incansável, este depara-se com a absurdeza de uma família que mantém um pai insepulto, entes incapazes de romperem o liame que os salvam do tempo enlutado. Aqui, a linguagem são os despojos.


‘Entre Rinhas de Cachorros e Porcos Abatidos’, de Ana Paula Maia

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Um livro que é um tratado da animalidade dos homens. Formada por duas novelas que frequentam um mesmo universo, temos aqui uma realidade desidratada de todos os contornos edulcorados, crua, suja e antiutópica. Personagens que se valem de gestos mecânicos e mínimos proveitos para tocar a vida em meio à bestas e, dessa condição quadrúpede, colocar-se ao mesmo nível delas. Um soco no estômago.


‘A Morte Sem Nome’, de Santiago Nazarian

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Ousado, intrigante e instigante. Um romance constituído por fragmentos de um puzzle alucinatório, onde a protagonista suicida-se a cada fim de capítulo. Na ciranda de mortes, todavia, é que se vislumbra aspectos da vida, uma sorte de memórias e delírios que alinham passado e presente, pois ao futuro cabe a brevidade de um epitáfio. Nazarian oferece uma experiência literária contundente e hiperestésica.’


Menções honrosas: 

  • Casa Entre Vértebras, de Wesley Peres
  • Aberto Está o Inferno, de Antonio Carlos Viana
  • Eles Eram Muitos Cavalos, de Luiz Ruffato
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Um comentário sobre “Desafio| Literatura nacional – Livros Escritos por brasileiros para Ler em 2016

  1. Gostei do que vc falou da mania brasileira de homenagear ditadores e golpistas. Ditadores como Floriano e golpistas como Deodoro têm seus nomes estampados nas principais avenidas e praças do país.

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