Artigo | A literatura e a Literatura comercial e A relação da academia com a Fantasia

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Não devemos deixar a literatura de entretenimento se tornar Literatura.

Com esta frase inicio a discussão. O tema é inegavelmente delicado, pois, de certo modo, mexe com os fundamentos da literatura brasileira, contestando, ainda que apenas parcialmente, os rumos tomados pela produção literária nacional que, ao longo de décadas, privilegiou o livro como obra de arte, de denúncia ou espaço para experimentação, catarse ou reflexão e, agora, “desvalorizou-a” como um despretensioso objeto de lazer, capaz de preencher as horas livres do cidadão comum com momentos de diversão e distração.

As questões geralmente discutidas quanto a esse assunto, levam perguntas como; “O fato de ter a intenção de lucrar desmerece os livros comerciais?”, “São livros oportunistas criados com o propósito nefasto de vender ou tem realmente um bom conteúdo?”, “quer dizer que uma obra de sucesso não pode ter conteúdo?”. Como ja deixei claro no artigo A importância da Literatura de Entretenimento e a diferença entre esta e a Literatura Comercial , Mas onde tento evitar justamente esta confusão, um livro escrito comercialmente não é assim caracterizado somente porque vende muito ou porquê tem escrita simples, ou ainda porquê o escritor escreveu-o para ganhar dinheiro, mas, sim, se ele o fez desconsiderando os leitores, mediocremente, com desrespeito e desonra, utilizando-se de padrões e formas alienadoras, logrando da ignorância ou ingenuidade alheia.

Há um caso específico envolvendo Dostoiévski: O escritor vivia em meio a dívidas gigantescas, mesmo depois de já ser exaltado como um dos grandes expoentes da literatura russa. Em certo momento, a situação ficou ainda pior: o contrato mantido com seu editor ditava que, se ele não entregasse uma nova obra em um mês, perderia os direitos autorais de suas obras já lançadas por cinco anos. O que fazer? Ora, o que ele fazia melhor. Escrever. Um mês depois, ele entregava a versão final de “O jogador” para a editora. Um Grande livro e escrito por dinheiro.

Esse caso serve para referenciar o ponto da questão. Caso olhasse para esta situação através dos filtros conhecidos teríamos algo como “Obras de sucesso podem ter bom conteúdo”, mas vejam bem, este é o ponto. Não discordo da citação, mas ela incorre em erro quando negligencia o “Somente”. O objetivo máximo.

A 6ª Arte, composta de percepção, emoções e ideias, contribuindo para abrir a nossa mente e de fazer fluir o nosso pensamento, florescer e transbordar o humanismo em si e ainda adubar o social. Tudo isso sempre com beleza estética; poética e gramatical. Extremamente importante no desenvolvimento de um povo por seu papel representativo na vida de cada um.

Qual o sentido de condenar a obra de um autor por que ele também pensou no quanto ia vender aquele livro quando o lançasse e não somente no quanto contribuiria para a sociedade ou no reconhecimento da academia? Que exigência absurda essa de que ele não pode simplesmente vender bem e, ainda assim, ser bom!

O ponto critico entra em voga quando se escreve apenas no intuito de vender, fazer dinheiro. Ignorando totalmente o conteúdo e desrespeitando o leitor.

O escritor conta histórias que emocionam, entretém e transformam. Essa ideia de que a dita alta literatura é grandiosa porque é intelectual, não é verdadeira. é grandiosa por que promove mudanças, não mudanças por mudanças, mas instigam os leitores, mechem com eles, surgem e compelem a criação de mais ideias. Movimentam o mundo e promovem o crescimento da sociedade. Não devemos, no entanto, entender estas ideias como derivados racionais, algo que se prese somente de logica dedutiva e raciocínio, nem tão pouco emocionais, com apelo emotivo e dilemas morais, é algo que transcende as barreiras e que não se viabilizam sem a presença um do outro, algo natural em vias de desenvolvimento do assunto, escrita, e não forçado para criar aceitação.

Crime e castigo é um clássico. Ele emociona, entretém E transforma. Em tantos best-sellers de hoje em dia somente vemos os dois primeiros. a arte como objeto transformador é ignorado.

O elemento subjetivo na estética sempre existirá. Mas a qualificação, toda noção de mérito artístico de uma obra, é algo objetivo e sustentado em pilares sólidos. Qualidade não é algo subjetivo, é possível enumerar de uma forma coesa e racional  as qualidades estéticas, filosóficas, espirituais, politicas, Humanistas, etc, numa obra com “Guerra e Paz” ou a falta disso tudo em um Nícolas Spark. Os parâmetros que determinam a excelência de uma obra qualquer existem, sim, e tem de ser buscados a todo transe. Caso contrario, aceitaremos a mediocridade como unica, possível, moeda de troca. Nada obstante, desprezar, a priori, uma obra atual, só porque ela vende não é inteligente, nem criticamente racional. Porem acho claro subjugar uma obra pela qualidade e potencia de seu conteúdo, independentemente da época ou ranking.

Alguns dos espetáculos mais marcantes da minha vida, ou alguns dos livros que mais amei, foram de uma chatice avassaladora – e só atravessando vastos desertos de estudo, reflexões, da contemplação, da do contato estreito e honesto com as mais altas manifestações de arte, e isso inclui um bom tanto de tédio, consegui perceber suas belezas. Se a chamada alta cultura perder essa permissão de nos entediar, muitas obras primas da humanidade deixarão de ser criadas, ora, tudo aquilo que parece difícil e complicado e demorado, parece também chato. Não só um jovem leitor, e amante da leitura, acostumado com  J. K. Rowling acaba achando “Ulisses”chato e entediante, ou um atleta amador se irrita com a rotina entediante de treinamento quando tenta competir profissionalmente, ou um jovem que ama fisica e quando entra na faculdade acha cinemática chato quando tem de resolver tudo por integral, Etc, etc. Os exemplos são infinitos e em todos eles, no fim, quando as coisas começam a fazer sentido novamente, surgi a beleza, agora muito mais radiante.

Por isso não devemos deixar a literatura de entretenimento se tornar Literatura.

Com isto claro entramos em outra questão: Literatura comercial vs Alta literatura. Existe uma real e iminente sobreposição a caminho?

Uma obra da Alta literatura é da alta literatura porque se faz de objeto importantíssimo na construção da sociedade através da arte. Uma obra comercial é comercial porque foca-se inteiramente na absorção de leitores através de temas, por exemplo, polêmicos e ou de grande audiência, pensando somente no lucro. De nada, ou quase nada, vale, dentro de uma sociedade, dificilmente se tornara um clássico, por assim dizer.

Deixo uma passagem de Schopenhauer:

“Antes de tudo, há dois tipos de escritores: aqueles que escrevem em função do assunto e os que escrevem por escrever. Os primeiros tiveram pensamentos, ou fizeram experiências, que lhes parecem dignos de ser comunicados; os outros precisam de dinheiro e por isso escrevem, só por dinheiro. Pensam para exercer sua atividade de escritores. É possível reconhecê-los tanto por sua tendência de dar a maior extensão possível a seus pensamentos e de apresentar meias-verdades, pensamentos enviesados, forçados e vacilantes, como por sua preferência pelo claro-escuro, a fim de parecerem ser o que não são. É por isso que sua escrita não tem precisão nem clareza. Desse modo, pode-se notar logo que eles escrevem para encher o papel (…).” – Schopenhaer

Muitos dos best-sellers atuais são histórias muito bem estruturadas; Percy jackson, Senhor dos Anéis, O Guia do Mochileiro das Galaxias, As Crônicas de Gelo e Fogo, Millennium, Harry Potter, A menina que roubava livros, A torre negra, etc. Mas a grande maioria são historias rasas, mal escritas, para determinado público mais leigo que busca distrair a mente do cotidiano quando lê, sem ter de fazer grandes reflexões. È, querendo ou não, uma obra sem conteúdo. Ela mal emociona e meramente entretém, acaba sendo inútil e até desprezível na arte, na vida.

“Ocorre na literatura o mesmo que na vida: para onde que que alguém se volte, depara-se logo com o incorrigível vulgo da humanidade, que se encontra por toda parte em legiões, enchendo e sujando tudo, como as moscas no verão. Isso explica a quantidade de livros ruins, essa abudante ervas daninha da literatura que tira a nutrição do trigo e o sufoca. Pois eles roubam tempo, dinheiro e atenção do público, coisas que pertencem por direito aos bons livros e a seus objetivos nobres, enquanto os livros ruins são escritos Exclusivamente com a intenção de ganhar dinheiro ou criar empregos. Nesse caso eles não são apenas inúteis mas prejudiciais. Nove décimos em nossa literatura atual não têm nenhum outro objetivo a não ser tirar alguns trocados do bolso do público. Para isso o autor, o editor e o crítico literário compactuam.”

Muitos farão a defesa apaixonada destes livros justamente pela capacidade de atrair o publico jovem, mas estes acabam ficando viciados neste tipo de livros, raso, leve, e não caminham em frente, não dão voos mais altos, permanecendo neste mundo de má literatura e mediocridade,comum, mediano. Como já comentei no artigo antes citado.

Os Jovens hoje estão em um estagio letárgico em relação ao pensar, preguiça de ler algo que dê trabalho. Vivemos na era das facilidades, tudo deve ser pratico, facil. E ler um bom livro, bem escrito artística e literariamente com ótimo discurso e argumentos bem elaborados, pode dá trabalho. Às vezes é necessário pesquisar, visitar o dicionario, reler trechos, etc.

Não afirmo que o complexo é sinônimo de bom conteúdo, mas um bom conteúdo tem, inerente a relatividade quanto ao que é bom conteúdo, conteúdo. Não é pleonasmo ou redundância. É um axioma que conteúdo ocupa espaço, logo tem substancia, essência, não é algo raso. E para um bom conteúdo é preciso refletir para ser assimilado, logo é desprezado pela grande massa. Massa essa explorada pelos escritores que enchem papel. O autor pode escrever o mais simples possível, mas o bom conteúdo vai torna-lo pesado, não seja pela gramatica, mas seja pela filosofia, pelas ideias, pelos problemas, pelas questões.

Se alguém se propôs a escrever um livro que escreva um livro, esta sera julgada pelo livro, sua qualidade literária, independentemente se o autor se propôs a escrever uma historia para preencher folha ou se propôs a escrever um clássico.

Literatura comercial não é um termo dado a livros populares de ficção, livros que estourem em vendas, mas sim livros que são feitos, desde sua idealização, escrita, finalização até edição final e publicação para, pura e simplesmente, vender. Isso não significa que uma obra popular em si não possua qualidade, mas significa que quando ela é feita somente para vender, a probabilidade disso é alta. O desafio está justamente em fazê-la simples e torná-la popular, em outras palavras, tornar um livro que contenha uma essência estudada, um assunto baseado em pensamentos, como disse Schopenhauer, mais facilmente aceito pela massa. Considerando a divulgação do conhecimento impressionável e necessária, este seria o modo mais fácil.

A discussão não esta elencada na forma que um livro seja melhor, não em termos expressadamente literários, por ter sua escrita difícil ou rebuscada. Não é necessário apelar para essa arte, outros termos são suficientes no caso. Então o Tornar simples não esta relacionado em transformar a escrita para algo mais fácil e mais digestivo, sem muito malabarismo e etc, mas sim em traduzir para sequencias mais elementar toda a complexidade de certo tema, de certa filosofia. Tornar em algo mais facilmente compreensível, ou seja, algo mais rudimentar, primário. Porem perdemos boa parte da beleza artística nesse processo.

“Apesar de muitas pessoas dizerem que tais obras são de baixa qualidade, por que elas vendem tanto?” “Se vendem tanto é porque são boas”. Sim, se o referencial for o Marketing , empreendimento e capacidade de se ajustar a uma demanda, ou exploração.

“A ficção consiste não em fazer ver o invisível, mas em fazer ver até que ponto é invisível a invisibilidade do visível.”―Michel Foucault

Estamos numa pos modernidade, pode-se ver isso na arte, onde não se procura uma superação suprema do complexo lindo mais próximo da realidade e de repente você vê uma perda de referencial. Uma coisa sem mensagem, sem um sentido objetivo. Tanto é que o que faz sucesso é o sertanejo universitário, Electronic house , ou livros  que não levam tema algum. Tudo muito raso. É incrível que esses livros ficam até sem representação, quando criticados, não se encaixam em nenhum sub gênero narrativo simplesmente por que não tem nenhum conteúdo que se possa classificar(Longe de Romance Romântico). O que pode representar uma nova era não só na literatura como no mundo.

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Muito se critica a academia brasileira de letras por analisar muito mais a linguagem e o contexto SOCIAL em que a obra se situa do que a história em si. Fazendo com que muitos sucessos e best selles sejam “esquecidos” e desconsiderados pela academia.

Observe que quando se fala de romance Falamos de uma grande preocupação com a psicologia das personagens, a verossimilhança, o contexto histórico, a situação social, a coerência narrativa, o desenvolvimento, a mensagem, etc. Costuma ser uma narrativa com começo, meio e fim, por isso não costuma ter continuações. A grande trama pode ser dividida em três ou mais livros, mas uma vez contada está contada.

Também é ouvido um questionamento a cerca de um tipo de boicote com a literatura fantástica, a academia não da chances e etc. eu estou acostumado a ignorar este tipo de ideia de conspiração ou boicote contra qualquer coisa, e a literatura não é exceção. Se você quer seu texto reconhecido pela academia faça valer, não procurar coitadismo e etc. È certo que aquilo que a massa compra geralmente não é tido pela sociedade, independente da época, como algo de bom conteúdo. Como já disse quando citei o nosso momento pós-moderno na arte e a falta de referencia, temos inúmeros exemplos na musica. E querendo ou não estes gostos seguem um padrão. A questão é o que você tem como meta, a academia ou a carteira. São raríssimas  as ocasiões onde um altor consegui entrar nos best sellers e na academia ao mesmo tempo. O que pode acontecer é entrar nos best selles depois de entrar na academia, ou o contrario, mas não no mesmo tempo.

O importante não  que os autores tenham em mente a obsessão quanto a prêmios e ou reconhecimento da academia, mas sim em criar uma obra dentro do seu padrão de qualidade e que atenda e atenda bem a sociedade, seja entretendo, ensinando e manifestando percepções, emoções e ideias. O verdadeiro desafio é fazer um livro com boa qualidade sem preciosismo gramatical ou prolixidade pomposa, de forma que venda e convença.

“Cada escritor tem os leitores que merece.” – Mário da Silva Brito (1916-)

 

 

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2 comentários sobre “Artigo | A literatura e a Literatura comercial e A relação da academia com a Fantasia

  1. Prezado colega Marcos Plymouth. Um texto de peso, com argumentação sólida e embasada. Permita-me fazer algumas considerações. Eu divergi no texto anterior quanto a um título. Na verdade, encaro mais como uma posição. Você respondeu e expôs a sua sobre a dita obra. Enfim, não fui replicar porque entendo que tanto eu quanto você finalizamos, e insistir seria tentar convencer, o que nenhum de nós provavelmente iria gostar. Afinal, o que quero dizer sobre este texto e o anterior é que tenho uma visão um pouco diferente, e para não ser raso ou pentelho (ficar escrevendo comentários monstros no espaço alheio), pretendo publicar um texto e espero sua leitura. Creio que para seres pensantes a divergência é boa. Pois acredito que se dois pensam de maneira igual, o que é ocorre é que um não está pensando. Quando publicar, não sei bem ainda data, linkarei algo seu para que, se quiser e quando der, leia e compreenda um pouco melhor minha posição crítica. Parabéns por ambos os textos e pelo interesse em compartilhar conhecimento a nós. Forte abraço.

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