Crônica | Empregadas – de Fernando Sabino

Desavença

Entre outras virtudes, as novelas de televisão têm a de enriquecer com novas expressões o vocabulário das empregadas. Só porque a patroa riscou três fósforos para acender o gás e em seguida atirou-os ao chão, a cozinheira exclamou:

– A senhora não devia fazer assim! Por causa disso ainda acaba provocando uma desavença no lar.

Como a patroa não entendesse e pedisse explicações, a cozinheira esclareceu o que parecia óbvio:

– Então isso não pode causar um incêndio?

Falar difícil

A empregada de um amigo meu tem mania de falar difícil. Está preparando o enxoval da filha e assegura a todos, com firmeza, que sua filha não se casará enquanto não estiver completamente enxovalhada.

Comentário dela, extasiada diante de um buquê de flores que a patroa trouxe da feira:

– Ah, mas que flores mais bonitas! Tão sinceras! Tão disfarçadas!

Outro dia, o gato da casa começou a se esfregar em suas pernas, ela o espantou com um gesto:

– Chiba, gato, infalivelmente! Que gato exterior, meu Deus.

Os simples de coração

Foi buscar os óculos da patroa, a pedido desta, e depois perguntou, muito séria:

– Afinal de contas, a gente diz “ócris” ou “zócris”?

A empregada veio anunciar o almoço:

– Gente, tá na hora de murçá.

– Não é assim que se fala – corrigiu a patroa.

E ela, imperturbável:

– Eu sei que é “armuçá”. Mas eu quero falar murçá.

O tal da televisão

Ao chegar em casa, recebi o recado da empregada:

– Telefonou um moço para o senhor.

– Deixou o nome?

– Disse que era o tal da televisão.

Tenho vários amigos na televisão. Só a TV Globo está cheia deles. E os da Bandeirantes, da TV Educativa…

No dia seguinte, a mesma coisa:

– O tal da televisão tornou a telefonar.

– Se ligar de novo, pergunta o nome dele.

Da terceira vez, perdi a paciência:

– Eu não disse que era para perguntar o nome?

– Eu perguntei! – protestou ela. – Pois ele tornou a dizer que era o tal da televisão.

Cheguei a pensar se não seria alguém que eu tivesse chamado para consertar a televisão – que, aliás, estava em perfeitas condições.

Até que ele voltou a telefonar – só que desta vez eu estava em casa:

– O tal da televisão está chamando o senhor no telefone.

Fui atender. Era o meu amigo Dalton Trevisan.

Come e dorme

E minha amiga Glória Machado me conta que recebeu da empregada o seguinte recado:

– Seu doutor Alfredo telefonou dizendo que vai levar a senhora com ele hoje de noite no come e dorme.

Deixa o Alfredo falar! Ela sabia que o marido é surpreendente e dele tudo se espera – mas não a este ponto. Come e dorme! Que diabo vinha a ser aquilo?

Só foi entender quando mais tarde ele voltou do trabalho. Na realidade a convidava para um excelente programa: assistir naquela noite à apresentação no Rio da famosa orquestra de Tommy Dorsey.

Só uma vez

Uma amiga me conta o que se passou com uma empregadinha sua, a quem um dia mandou que fosse à padaria comprar pão.

Algum tempo depois a moça apareceu grávida. Quando a patroa lhe perguntou quem tinha sido, informou:

– O padeiro.

– Mas você só foi uma vez à padaria! – estranhou a patroa: – Como foi acontecer uma coisa dessas?

Ela ergueu os ombros, com um suspiro:

– Deus quis…

Escrito por Fernando Sabino. Textos extraídos do “Livro aberto”, Editora Record — Rio de Janeiro, 2001, páginas diversas. Este livro foi agraciado com o Prêmio Jabuti 2002 (Contos – Crônicas).

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