Conto | O Abutre

O Abutre

I

— Quem achou o corpo? — Jaques apareceu do nada, como uma nuvem, por trás do policial João. — Parece que foi morta com alguma arma grande… Mas não há cabeça. Ele a arrastou para o meio deste pátio, esquartejada e ninguém o viu. Alguma caminhonete. E as Câmeras?

— Detetive, achamos um furgão parado na esquina da Juracy com a Principal. — Gritou um dos policias.

Jaques se levantou e saiu na mesma velocidade com que chegou. Ligou o motor de seu carro e cortou as ruas da pequena cidade até o local.                                                                               O furgão estava parado com os vidros da cabine abaixados. Logo a policia cercara o carro e o Detetive Jaques se desloca para a porta do fundo. Um policial abre a porta e o detetive pula na frente da porta gritando; “Policia!”.

O policial que abrira a porta não se conteve e vomitou. Mais alguns o acompanharam na façanha de sujar a rua toda.  A cena era insuportável até para o agente mais preparado e experiente. A cena se superara não somente pela carnificina, mas as crianças despedaçadas ali mexiam com a mente e o estomago de qualquer um; Uma dezena de corpos estava empilhada uns sobres os outros. Com suas tripas circundando os corpos, em meio à merda e sangue por todo o carro. Parecia que algo tinha comido os corpos e regurgitado ali mesmo. A cena era triste, em nada se parecia com arte, mas o Detetive achava, e tinha razão, que essa seria apresentada, assim que possível, ao publico com o ofício e dignidade de uma.

— Não deixem que ninguém se aproxime. — Disse temeroso entrando no fundo do carro e apanhando um disco de vídeo que estava pendurado com barbante. “Qualquer um destes abutres poderia ser o causador desta carniça, desta cena.”, pensou. Era tarde, sirenes em cidade pequena significa assunto para a proza de logo mais; os curiosos já se acumulavam aos arredores da caminhonete com seus celulares e câmeras procurando o melhor enquadramento daquela destruição.

Já na delegacia, em sua sala, Jaques colocou o disco no player e assistiu as cenas. Aquele massacre sangrento não o deixou ver a gravação toda; quatro cadáveres mortos, duas crianças e dois idosos, haviam sido amarrados juntos em uma cadeira e retirados todos os órgão internos de seus corpos.

Seu coração já viu muita coisa ruim, e já sofreu muito por muitas vidas, durante todo seu tempo de serviço. Muitas lagrimas dos olhos de pais por seus filhos, por filhos dos outros, até seus cachorros sentiram o peso de uma mão decidida a matar. Justificadas ou não já era hora de tudo isso passar, parecia que para cada pessoa que salvara outras duas sofriam inocentemente a desgraça do abraço gelado da morte. Pensava porque as pessoas tanto gostam de violência; Talvez se sintam bem, será? Mas não lhe parecia sensato, até para as mentes mais lunáticas. Consumi-los em fogo não seria nada, mas com um motivo talvez traga satisfação. Alias no que se baseia o sadismo? Jaques não sabia responder, mas via sua representação viva no vídeo.

II

— Nada aqui pareceu mudar, Jane. Tentamos conversar com o Detetive Jaques no inicio da tarde e fazer algumas perguntas, mas não conseguimos nada. Espere, espere. — A moça se virou e começou a correr em direção à calçada da casa. — Ele esta aqui, ele esta aqui… Senhor Jonas, senhor, poderia responder algumas perguntas? Senhor… poderia nós contar o porque… — Ela gritava no microfone em meio ao turbilhão de câmeras, repórteres e curiosos que também tentaram obter uma cena.

Joana desligou a TV e se levantou do sofá rapidamente. Caminhou até a porta e a abriu antes que Jonas pudesse tocar a campainha. Ele entrou, ela fechou a porta e os dois sentaram juntos no sofá.

— O que esta acontecendo aqui Joana? — Perguntou apavorado. — Desde quando eles estão aqui?

— Ainda bem que voltou. — Disse, abraçando-lhe. — Não sei quando chegaram, estava resolvendo algumas coisas, quando voltei já estavam aqui. — Levou-o para o sofar. —Parece que você foi acusado de alguma coisa. Algumas viaturas vieram hoje para leva-lo. Sabe como aumentam as coisas.— Disse Joana.

Jonas não acreditara que em algum dia de sua vida ser interrogado como suspeito de um crime, muito menos aqueles que o conheciam e faziam parte de seu cotidiano. Detetive Jaques era o encarregado do caso, mandado diretamente da capital. Sua especialidade era casos extremos, diziam os noticiários.

— Fiquei o dia todo na pedreira. Esses abutres estão sempre procurando a merda de alguém. Você deveria se orgulhar por não usar disso pra se promover, mesmo depois de tanto que passou. Será que eles acham mesmo que fiz algo, matei alguém? — Jonas olhou para os lados e só queria brincar com seus filhos. Na parede uma fotografia de sua esposa quando ainda trabalhava como repórter, tinha grande admiração por ela, sendo-a seu travesseiro macio.

— Somos os restos de uma sociedade canibal, A mídia só comemora a demência humana e utiliza-se dela. — Falou ela, olhando-o nos olhos.

— Não saberia por que eles transmitem toda esta dor nem em um milhão de anos. Alias, Onde estão as crianças? — Jonas perguntou mudando de assunto. Ele apoiou os cotovelos nos seus joelhos e cobrindo o rosto com as mãos pensou um pouco. Ele mordeu os lábios e ligou a TV novamente. Dizia:

— Não faz mal, Jaci, conseguimos informações importantes de uma pessoa de dentro do departamento sobre a natureza do caso. Vamos a ele. — Dizia a mulher a partir do estúdio. A tela se dividiu em duas e apareceu uma linha telefônica. — Não informe sua identidade, apenas diga-nos o que acabou de me dizer. — Continuou a ancora.

— As poucas informações que tenho levam para um assassinato. Um serial killer. È isso que todos estão comentando na delegacia. Ainda não temos muita certeza disso.

— Um assassino em serie, Brasil, um …

Jonas desligou a TV outra vez. Agora decidida a não liga-la mais.

— As levei pra casa de sua mãe, amor. — Respondeu Joana Johnson, abraçando-o novamente enquanto contava os flashes que atravessavam a janela.

A notícia que saiu em todos os jornais abalou não somente a pequena cidade interiorana de Mirante. Não passara pelas cabeças das pessoas que algo tão terrível pudesse acontecer neste pacífico lugar. Este mundo esta cada vez pior, eu sabia que não custava nada para uma coisa dessas acontecer, diziam os velhos da cidade, nunca se cansavam.

III

È um lindo dia na cidade de Mirante, o sol brilhava e esquentava as ruas. As pessoas caminham, as crianças vão à escola e os repórteres continuavam acampados na porta dos Johnson.

Na pequena lanchonete ‘Senhor Café’ o detetive Jaques come um sanduiche enquanto assistira o noticiário. Alguns ali olhavam torto para si, mas ele não ligava; Só temem o que não entendem. Disso ele entende. Sem aviso, e em um som desagradavelmente agudo, seu telefone toca e rapidamente ele atende, ouvi as palavras sem falar nada, desliga e guarda o celular enquanto joga uma nota de 10 reais no balcão. Em um pulo esta dentro de seu carro, em outro esta dentro da delegacia.

— Então. — Jaques parou por um instante e leu o relatório. — Senhor Jonas, provavelmente já leram seus direitos para você. Sabe qual sua situação atual?

— Obviamente estou sendo interrogado por ter sido acusado de algum crime. — Disse firmemente escondendo muito bem seu perturbação.

— Sim, está certo. Mandamos uma guarnição para sua apreensão ontem, mas ninguém sabia do seu paradeiro. Nem sua mulher. Quanto às particularidades deste tal crime você deve entender melhor que qualquer um aqui. — Falou sarcasticamente enquanto lutava com seus instintos e tentava manter-se firme e não matar Jonas ali mesmo.

— Mas isso se você me considerar culpado. — Retrucou. Seu medo não o atrapalharia de se manter firme. Sabia que não existiria provas que o incriminassem e ainda, de qualquer maneira, não diria nada sem um advogado.

Jaques o olhou furioso esmurrando a mesa de metal. Aquela imagem teimava em rodear seus pensamentos, ainda sentia o cheiro dos restos das crianças. Morreria e nunca se esqueceria. O sangue é a marca da liberdade, mas é hora de ir à guerra. Os pequenos soldados não tiveram muita sorte em sua pouca vida, mas ao-menos receberão vingança.

— O furgão pertencia a você e identificamos a arma do crime, uma quebra pedras, você trabalha no único lugar da cidade que tem uma. Não preciso nem falar das digitais em tudo. — Ele despejou as fotografias na mesa e continuou. — Onde você estava ontem o dia todo?

— Estava trabalhando na pedreira, sim. Mas isso que você falou não faz sentido. A minha caminhonete estava com minha mulher, para levar nossos filhos para a escola. Eu nunca seria capaz de uma coisa destas. — Disse tremulo ao olhar as fotos.

— Sua mulher nós disse que não sabia onde você estava. E seus filhos, onde estão seus filhos?

— Não entendo porque ela diria isso. Joana, com tudo isso acontecendo as deixou na casa de minha mãe, na cidade vizinha. — Disse segurando as lagrimas, toda aquela dor em sua frente o lembrara do quanto ama seus filhos e empaticamente sente a dor que aqueles pais estariam sentindo. “Todas aquelas crianças, tão novas, quanto dor meu Deus!” Em um minuto quase esqueceu que era o acusado de tê-las assassinado.

— Mandaremos uma viatura lá pra confirmar. — Jaques tinha em mente o que acontecera na realidade, mas temia, e torcia contra, com todas as suas forças. Apesar de não haver provas que o inocentassem, pelo contrario. Porem isso estava para mudar.

Um policial entrou amedrontado na pequena sala e chamou Jaques para fora. — Você precisa ver isto! — Assim Jaques o fez depois de recolher as fotos.

No saguão da delegacia todos se reuniam em frente à televisão suspensa e olhavam fixados em algo que passa, algumas pessoas cobriam os rostos, outros viravam de costas e o choro era inevitável.

Na tela, uma frase em letras garrafais dizia: “Aviso: Imagens fortes, não recomendadas para pessoas fracas”. Como se a frase realmente tivesse o efeito que prega as imagens iam passando de todas as formas possíveis e reprisadas sempre que acaba o vídeo. No vídeo passava uma espécie de closet, com prateleiras de madeira. As imagens que seguem estavam quase todas com mosaico, o que não amenizava o impacto das imagens: Nas prateleiras estava exposto o que parecia ser cabeças decepadas de crianças, incontáveis. Uma mulher comentava as imagens e dava um parecer sobre o fato, mas ninguém a ouvia, assim como seus corações e sua mente, seus ouvidos quebraram e entraram em uma nova realidade onde nada daquilo um dia existiu. Mas na cabeça de Jaques a única pergunta que vinha era o quão dura é a natureza da pessoa que fez as imagens. Ela nem mesmo tremia. A grande maioria das pessoas ao presenciar uma cena daquelas no mínimo desmaiaria. Seu cérebro o obrigara a não ver aquilo.

Um tiro é disparado e algumas pessoas saem correndo para checar. Jaques se mantem pensante frente a tela.

Depois de muitas repetições a imagem muda para um estúdio com uma mulher sentada em uma poltrona e chorando. Jaques e todos ali já sabiam, mas só acreditaram mesmo quando o close mostrou o rosto da mulher. Joana chorava descontroladamente, na fria ausência de lagrimas. A chamada da noticia mudou: Mulher acha e filma acervo de marido Serial Killer.

— Não sei como uma coisa dessas pode acontecer. Como não fui capaz de perceber? — Joana disse em meio a soluços enquanto a plateia assistia atenta, esperando o intervalo para irem tomar um refrigerante e criticarem a roupa umas das outras, o cabelo talvez.

— È incompreensível essas coisas que acontecem com pessoas boas. — A apresentadora franzia as sobrancelhas e falava pausadamente.

— Sabemos que seus filhos também estão desaparecidos. Mas não se preocupe, logo eles o encontrarão. — A  imagem das crianças aparece. Os olhos fixados de Jaques as vêen e as reconhece de mais cedo. A dor sobe desde seus pés e cresce no coração, aquela dor não seria suportada por ele, não deveria ser suportada por ninguém, nem existir. Mas ele decidiu que sua vida não vale ser vivida se só encontra isso. E outro tiro é disparado na delegacia.

— Jonas os levou até a casa dos pais deles ontem. — Disse joana.

— Espere, acabamos de receber uma noticia urgente. Como um programa decente em pacto com a verdade e a sociedade temos o dever e o direito de informa-los com a verdade. — Ela se levantou da cadeira, passando por Joana e a alisando como um motorista alisa um animal atropelado antes de sacrificá-lo. Foi a frente da plateia e onde o enquadramento das câmeras era perfeito e deu a noticia para o publico que batia recordes de audiência. Um policial, aparentemente depois de ver as imagens passadas pela emissora, atirou na cabeça de Jonas o matando na hora.


Marcos Plymouth

 

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