Conto | Conheço Meu Assasino

Conheço meu Assassino

I

Aquela sala cheira a toalha molhada, todas aquelas pessoas convivem o dia todo dentro da caixa quente. Por trás do forro contra ruído externo, uma colônia de fungo vivia feliz e se reproduzindo, Fábio não sabia disso e não entendia porque sua renite atacava todos s dias. Mas isso não atrapalharia seu trabalho; alguns comprimidos e um suco de laranja eram o suficiente para trazê-lo a toda força para a noticia. Posiciona o estranho, mas eficiente, microfone próximo a sua boca, inclina o corpo e apertando em alguns botões na mesa para que parasse a musica e dessem-lhe a vez. Ele lança o primeiro “Bom dia” para os ouvintes e começa seu programa.

 

— Olá. Acabaram de ouvir “Jennifer She Said” e a partir de agora, comigo nas noticias da cidade e região. — Alguns sons estranhos soaram e ele continuou. — E hoje recebemos uma mensagem contendo algo muito curioso, uma historia no mínimo interessante. Se existe uma coisa que eu tenho certeza neste mundo, é que não sabemos de nada. Sempre há espaço para duvidas, e assim trago esta historia que anda dando assunto na cidade. Entre novos, velhos e negadores, entre crentes, descrentes e doentes. A historia do menino que diz ter tido outra vida e foi assassinado, agora reencarnado numa criança que afirma saber quem é seu assassino e ira ás revelar. Além dos recentes casos de doença da vaca louca na cidade, a promoção maluca da “Loja Ás”, a programação para o dia da independência e muito mais logo depois do intervalo comercial. — Continua apertando alguns botões enquanto procura o celular no bolso do blusão.

 

*****

 

Do outro lado do Radio, sobre o balcão americano de mármore preto alguns comerciais irritantes saem da caixa e percorrem toda a cozinha. Marcia não perdeu tempo e rodou a polia que fez o som abaixar para o quase inaudível. Na mesa do meio da cozinha estava Rony e o filho dos dois, André.

— Está vendo filho, o que você disse esta fazendo o maior alvoroço na cidade. — Disse Rony, com as mãos no ombro de André.

— Ainda bem. — O garoto de apenas oito anos berrou aliviado.

— Isso pode não sair bem. — Seu pai não acreditara que a historia que seu filho soltara e  imaginara em algum devaneio de  uma noite com trovão iria mesmo ser ouvido pelo povo. — Mas você sabe que isso não pode ser verdade, correto? — Perguntou ao garoto que respondeu calmamente depois se afogou nas panquecas que sua mãe havia feito: “Claro”.

O telefone de Rony tocou.

— Olá. Diga Fábio. Não, olhe, não sei se é uma boa ideia. — Falou, olhando para o garoto que ouvia atentamente o que dizia. — Seria uma boa ideia sim. Mas não apostaria que desse muito certo. — Deu uma garfada em mais um pedaço do futuro infarto pensando durante a longa replica de seu colega. — Ok. Vou leva-lo lá a depender de como as coisas fluam poderemos fazer isso. Até mais. — Rony desligou o celular e voltou a comer.

— O que foi, amor? — Marcia perguntou assustada, perante a natureza da conversa sua cabeça perturbada começou a pensar besteira, mesmo sabendo que Rony resolveria se fosse algo importante. Ela gostava de ficar por dentro dos negócios do marido.

— Aumente o radio. — Pediu afetuosamente.

 

*****

 

Fabio desliga o celular e aperta um botão.

— Oi ouvintes, estamos de volta com o programa. E agora com novidade: O menino e sua historia mais falada da semana estarão aqui, sim, no nosso programa, respondendo algumas perguntas. Então o que estão esperando, mandem suas perguntas para nós que as faremos ao vivo! — Ele olhou uma cartilha na mesa. — Para você que queira nós patrocinar, estamos com anúncios abertos.

 

II

 

— Olá Olá. Acabaram de ouvir “Go Your Own Way” de Fleetwood Mac e a partir de agora, comigo, nas noticias da cidade e região. Sem mais rodeios estamos de volta com a historia de reencarnação que movimentou a cidade. Vamos a ele: Poderia nós cotar um pouco da historia? — Perguntou ao menino.

— Eu, nada podia salvá-lo. Tinha 35 anos e vendia automóveis e ai foi matado tem oito anos.  — O garoto puxou a gola da camisa se escondendo atrás dela com os cotovelos sobre a mesa.

— E quem era “ele” ? — Perguntou o radialista Fábio sorrindo á entoar o garoto.

— Eu mesmo, foi em 2007. — Disse André trocando olhares rápidos com Fábio e Rony, e admiradamente assustado com a quantidade de botões que havia ali.

— Você poderia nós contar como isso aconteceu? — Fábio olhou para Rony enquanto testava o limite da entrevista para como o menino. Aquilo lhe renderia assunto o semestre todo.

— Estava deixando o trabalho, caso que ia embora, aí foi morto com um bando de tiros por um homem grande cheio de tatuagem. Fui furado aqui e aqui. — André apontava duas marcas no rosto.

— No seu rosto? — Perguntou Fábio para tornando visual ao publico.

— Sim.

— Continue.

— Ai ele colocou o corpo no porta-malas e jogou no lixo. Tinha outro homem com ele, no carro. — O menino deu indícios de choro, aquela imagem de alguma forma ia tomando forma em sua mente e ele não gostara do que via.

— Já deu, não?! — Disse Rony fora do microfone. Mas Fábio não achara isso e murmurou para ele “E as perguntas?”. Rony não deu ouvido e retirou seu filho do local.

— Então é isso, galera. Não nos sentimos bem em continuar com perguntas, o garoto parecia muito abalado. Fiquem com o intervalo e já voltamos com mais noticias. — Contou Fábio para a multidão que o ouvia, ainda insatisfeito com os resultados da entrevista.

— Poderia espremer muito mais caldo daquela historia. — Ele deixou a sala de transmissão e se juntou a Rony e André na sala ao lado.

— Este bom pra você? — Perguntou Rony sem mais paciência.

— Sim, mas poderíamos ter ido mais além. — Fábio também não estava muito satisfeito mais conseguiu o suficiente.

 

III

Era um dia comum na cidade, padres nas igrejas e fieis em seus casulos, ou quase isso. Faziam dois dias da entrevista que o pequeno André dera na radio, foram poucas palavras, mas o suficiente para todo tipo de jornais sensacionalistas reproduzirem o relato por todos os tipos de mídias possíveis. Este tipo de noticia costuma andar muito rápido, e no meio certo, voar. È o caso da “Congregação Cruzada De Milagres” e “Centro Espirita Da Pedra De Fogo” que começavam a se amontoar, a historia para um era invenção da criança e besteira de quem a alimentava e pra a outra a historia era uma afirmação da reencarnação.

Não obstante os motivos muitos adeptos se aglomeravam em frente da mansão de Rony e Marcia em busca de uma oração ou coisa parecida, médiuns apareciam para fazer uma seção e ajudar o menino, além dos curiosos que apareciam só pra filmar e tirar fotos e compartilhar aquele que parecia um caso de histeria coletiva.

— Já viu como esta a frente de nossa casa? — Perguntou Marcia, entrando no escritório de Rony que falava ao telefone.

— Não, esta tudo de acordo então. Podem começar agora mesmo. Eu soube hoje que o caso foi reaberto, mas não me pergunte o porquê. Também ouvi que um investigador não esta tão certo disso, em todo caso não nos envolvemos. — Falava ele sentado na cadeira. Na sua mesa repousara vários pacotes de dois quilos de cocaína e no divã dois dos seus comparsas.

— Andem, tirem isso daqui, só quero vê-los agora se for com meu dinheiro. — Gritou Rony, ao ver Marcia parada de braços cruzados na porta. — O que quer, amor?

— O que pode fazer por toda esta barulheira? Não aguento mais. — Reclamou ela.

— Não posso fazer nada, estão na rua, mas já telefonei para a delegacia e caracterizei-os como um motim, não deve demorar. — Apagou o cigarro e se levantou. — Agora só me importo com o bem esta do meu filho. Já falou com ele hoje?

— Não, ia fazer isso agora. — Marcia já estava acostumada em ser deixada de lado algumas vezes, Rony só pensara no filho. O herdeiro que precisa de tudo para herdar o negocia, em bora ele não soubesse que negocio seria esse.

— Pois, não precisa, deixe que eu estou indo lá. — Passou por ela dando-lhe um beijo na testa e seguiu ao quarto do filho.

Duas batidas. Não esperou a resposta e foi entrando no quarto. O menino estava na janela vendo todo aquela movimentação na janela e virou-se com um olhar frio e sanguinário que faria qualquer um temer, se ele não tivesse pouco mais de um metro de altura.

Enquanto os dois conversavam começou a surgir no meio da confusão, foram pessoas alegando ter conhecido o homem da delação, inclusive com nomes e tudo mais. Aquilo parecia estranho para algumas pessoas ali, já que não houve, até então, nenhum tipo de informação dada pelo menino sobre as características do assassino e de si mesmo no passado.

— Eu o conheço! Sei quem ele era na outra vida, da cidade de onde vim houve um assassinato como o descrito por ele, sem tirar nem por! — O homem abatido parecia ter um problema grave de nutrientes, era magro como uma porta. Ele poderia fazer qualquer coisa por um prato de comida. — Acharam o corpo no lixão e tudo! Ele era meu amigo.

— Ele tem razão! — Gritou outro. — Uma vez comprei um carro com ele, gente fina, seu nome …

Rony já saia do quarto, a conversa não foi muito demorada e pela expressão no rosto de André, não muito proveitosa também. Ele fecha a porta e segui para a sala. Já no sofá liga a gigante TV grudada na parede e faz outra ligação.

— Hei! — Rony rosnou para Fábio. — Trate de parar de compartilhar esta historia. Meu menino está muito abalado. Isto esta indo longe de mais, e pode sobrar para mim. Sabe que não posso receber ibope.  Tem uma multidão aqui na frente e talvez isso ajude a dissipa-los. — Rony não pediu por isso, mas agora que as coisas saíram do controle só pode esperar um desfecho. Ele foi o responsável por deixar a historia de seu filho ir para os meios de comunicação agora tem de tira-lo, e “talvez com mais informações sobre o caso ele não se sustente”, foi o que pensou. — Já conseguiu o que queria, agora pare com isso. — Ele intimou Fábio, embora isso não fosse novidade entre os dois. Foram longas datas de historia.

 

IV

 

A policia, que no inicio não se importara com a historia, baseada somente em relatos religiosos, tinha registros de um crime que se assemelhava muito as descrições do garoto. Nem todo policial ali era corrupto ou não se importara. O ponto fora da curva viu a oportunidade e se impôs na responsabilidade de resolver este impasse, o que deu inicio a uma investigação pessoal. Que justiça a gente tem, que justiça nós queremos? Ele vivia com esta pergunta e mantendo essa política perversa para os abutres busca fincar as grades no lugar certo.

 

— Você não pode estar falando serio. — O policial olhava para o parceiro com um tipo melancólico de desprezo.

— Por que não? — O outro conhecia o motivo da reação de seu colega, mas não entendia como aquilo se formara na sua cabeça.

— Uma historia criada por uma criança, provavelmente deve ter sido somente fruto de sua mente, não pode ser motivo e nem pretexto para uma investigação policial seria. Sua religiosidade não pode interferir em assuntos oficiais e públicos. — Disse, tentando dar um fim de vez na conversa.

— Sou religioso sim, mas a sociedade tem perguntas, e perguntas que nós envolvem, com ou sem ceticismo temos o dever de respondê-los, oficialmente. — Falou dando as costas para o amigo e pegando uma pasta que trouxera de casa. — Além disso, os relatos do garoto batem perfeitamente com um dos casos que investigamos, peguei o arquivo ontem e passei a noite trabalhando nele. Vou apresentar para o capitão. Se você quiser pode ler. — Falou esticando a pasta para o peito do policial.

— Se você tiver razão e os crimes forem os mesmos, com provas irrefutáveis, ainda assim deve haver uma resposta logica para tudo isso! Como pode ter certeza que as falas do garoto são realmente dele, sabe como crianças são muito propensas à manipulação.  — Aconselhou empurrando a pasta de volta, e continuou saindo da sala. —

Aquele policial ficou com uma pulga atrás das orelhas, mas ainda acreditava que algo não natural pudesse estar agindo ali.

A próxima hora passou rápido para ele, sua revisão no seu trabalho o tirara da rua neste expediente. A cidade estava parada, quase não houve crimes, mas muitas equipes de jornalistas de muitos canais nacionais e até representantes internacionais chegaram na cidade com sua caravana de carros com antenas gigantes em cima.

Tomou alguns copos de café antes do capitão chegar na delegacia. Ele foi diretamente para sua sala e bateu a porta. O policial o seguiu e bateu na porta.

— Seja quem for essa não é uma boa hora. — Exigiu o capitão, com a cabeça apoiada sobre as mãos na mesa.

— È sobre um caso. — Gritou o policial do lado de fora.

— Mas que caso droga! Há quer saber, entre logo e desembucha. — Exclamou o capitão.

O policial entrou com a pasta sobre o braço e parou em frente ao chefe.

— Vamos fale logo.

— Certo senhor; Como toda esta historia que esta acontecendo na cidade e com os detalhes que o garoto dera, lembrou-me de um caso, outro mês, reaberto para investigação…

— Não enrole, fale logo. — Agora o capitão, ainda com raiva depois do inferno que passou com os jornalistas, em busca de informações, estava vendo um paliativo se formar, seja para comprovar ou desmentir, ele só queria dar uma resposta e se vê livre, e não mais queria calar o policial, mas ouvi-lo.

— Eu acho que os casos são os mesmos. E tenho provas contundentes para isso.

Os dois sentaram e conversaram.

 

V

 

— O caso demandou algum tempo para a aquisição de todas as informações necessárias, precisamos de todas as informações possíveis de todos os dois casos. Por isso tivemos que tomar depoimento dos atuantes no caso primário, de assassinato, junto com os policiais, corpo de legistas, testemunhas e réus, do caso primário e do secundário. Assim como também era necessário tomar o depoimento dos participantes do caso secundário, de delação, são o delator, a criança, sua família, pai e mãe, alguns empregados da escola onde a historia começou, e pessoas que tiveram contato com ele no inicio dos comentários. Esse processo demandou dois meses completos, e mais quinze dias de tramitação, damos inicio ao julgamento. — Disse o promotor.

Depois de muita discordância, houve uma busca pelo suspeito relatado um foi preso, outrora fora réu no caso, que agora volta a tona. O caso estava a ser revisto, juntamente com o responsável pela acusação formal, o malsim, o chefe de policia, e o advogado do réu, para um, provável, futuro julgamento.

— Estas são as acusações: Homicídio triplamente qualificado por motivo torpe, asfixia e uso de recurso que dificultou a defesa da vítima, a execução do homicídio foi meticulosamente calculada e não casual por motivos incertos; por sequestro e cárcere privado; e por ocultação de cadáver. — O comandante virou a pagina e continuou a leitura. — Como base, as seguintes: O corpo fora achado onde a criança dissera; o motivo da morte foi o mesmo: dois tiros no rosto; os nomes, relações e retratos da vitima condizem com o relatado; o retrato físico do criminoso condiz com o réu já julgado em outra instancia, cujo investigação fora aberta vide recebimento de novas evidencias, para questão de clareza listo aqui: filmagem de sua loja, antes perdida. Esta claro que se tratam do mesmo crime assim como a culpabilidade do réu.

— Vocês percebem que esta acusação esta baseada somente em julgamento religioso, certo. Isto é inadmissível para um julgamento serio! — O advogado de defesa explodiu com o comandante e o promotor.

— Respeito em minha sala. — Repreendeu o Juiz que até então ouvia tudo quieto.

— Proponho uma retirada da queixa e acusações e esquecimento do caso. — Completou o Advogado.

— Quanto ao julgamento do réu baseado nas alegações de uma criança parece-me loucura, nisso eu devo concordar com o senhor, embora as redes parecem não pensar o mesmo. Contundo com todas estas informações, isso não podem ser somente coincidência, porem tenho uma visão, que difere da sua, sobre isso: assumindo a impossibilidade da criança saber tais informações sobre o ocorrido sem que esteja lá, acredito que ela teria sido induzida a tais alegações, este seria o mandante do crime que busca. — Alertou olhando diretamente para todos na sala. — Ainda arrisco aponta-lo: O pai da criança. — Aquele advogado sentira aquelas palavras como um peso, em meio a admiração a astucia do promotor, entendeu aquilo como uma possibilidade de confissão para seu cliente. A redução da pena, nestas novas circunstancias, seria sua única saída. — Também não vejo os casos separados, e existem evidencias suficientes da antiga investigaçao, o achado do corpo, agora reaberto, para indiciar o réu ao menos a homicídio doloso qualificado.

Não tendo mais o que falar, e vendo que aquilo não poderia se resolver ali, todos assentiram calados para o Juiz que deflagrou.

— O caso vai a julgamento. Esperem as datas no diário oficial, receberão os ofícios, até lá editem suas linhas de acusação e defesa. Vejo-os no tribunal. — Bateu o martelo no tapume de madeira.

 

VI

 

Todos assentados em suas acolchoadas cadeiras, com pregos e espinhos a todo o momento furando-os. Incomodando sobre a pele e até a alma. Ninguém podia ficar um tempo parado, inerte, a flor estava além da pele. Sobre a capa de cada uma das questões debatidas no tribunal, duvidas  e certezas, leis e códigos, morais ou não, afloravam para além das discursões, além dos discursos. O peso da alma de alguns influenciava em seu texto, outros dormiam com a razão. Alguns viviam de manipula-la a seu gosto. O gosto era baseado na autarquia. Os sabores eram amargos para uns, contra o universo, o universo contra si. Por hora não fazia sentido. Mas foi uma cena bisonha.

A culpa haveria de ser comprovado, o réu chorava. Ele sabia que a vida não lhe dera oportunidades, mas as que apareceram tratou de abocanhá-las indiferentemente ao mundo, talvez se fosse o caso de se repetir a questão ia ser mais discutida em sua mente, mas ele sabia qual escolha faria. Mas desta vez com mais ênfase. Alguém ia sobejar. Agora ele também faz parte do mundo e o jure era o universo, a justiça não veio por meio dele, mas de algum modo a vitima não se sentia vingado. O tempo não voltaria para, então decidiu colocar no mesmo buraco aquele que cavou o seu.

O Juiz chamou um intervalo para a discussão e formação da sentença. Duvidas não havia e os últimos passos. As estratégias não se comportavam mais no campo moral, a virtude foi deposta para a vida. O que ela sem a outra? Mas e a outra sem ela? Era mais uma. O prato estava quebrado e não havia modo de desfazer a tragédia, mas com uma boa cola ainda poderia ser usado outra vez.

 

— Patrão, vão me prender. Eu não tenho quem cuide de minha família. — Ele estava prestes a pedir a seu chefe que cuidasse de sua família enquanto estivesse preso, quando todas aquelas imagens surgiram em sua cabeça; os trabalhos, as historias, a confiança que depositara durante sua vida, aquele homem era como um pai que sempre interfere na vida de seu filho e da um jeito de arrumar as coisas. “Como naquele dia”, pensou.

Eureka! Neste momento seu sangue parou de correr pelo seu corpo, seu oração parou de bombeá-lo, sua mente fundia-se com sua alma. A ideia, a possibilidade, surgiu e as imagens logo passaram saltaram de seus olhos para a realidade.

— Mas nós retiramos aquela fita, a gravação.

Talvez estivesse chapado, pensou.

— Do que você esta falando. — Disse o Patrão, estranhando o subsequente silencio do outro lado da linha.

No turbilhão de desencanto, de desilusão, de imagens, de memorias, que passam na cabeça do indiciado, ficava cada vez mais difícil negar a rasteira que tomara. O que mais o indignava era a falta de necessidade daquilo. Não existiam provas alguma contra ele, ou perigo ao seu esquema. Ele fez por prazer, por poder, por pura estética. Um narcisismo á sua fria manobra.

 

VII

 

— Vai ao tribunal hoje? — André perguntou ao seu pai, que não estava dando muita importância com os rumos da investigação e se perdeu no tempo, mas seu filho logo foi relembra-lo.

— Vou sim, mas fique com sua mãe. — Falou enquanto o abraça e ele a Marcia, e pensava o tempo que iria perder indo até lá. — Assistiremos na tevê, a sentença passara ao vivo. Sabia que aquele seu amigo radialista virou repórter desta emissora? — Disse Marcia.

— Ok. — “Ao menos ele conseguiu o que queria” — Vou indo, ou me atrasarei.

O caminho até o tribunal foi truculento,  muitas curvas e investidas do seu motorista, o que acabou causando um pequeno enjoou em seu corpo. Enquanto estava parado na ponte que ligava a área nobre da cidade ao centro dela, recebeu uma ligação de um de seus parceiros pedindo-lhe algum tipo de ajuda enquanto estiver preso. Imediatamente fez outra ligação para verificar a família do cujo, mas toda ela estava no julgamento que também acontecerá esta tarde.

Desistiu, sem muito pesar e encheu o copo com Wisk.  A vontade de Rony ali era de desviar-se do caminho e ir comer alguém que lhe deve. Muitas casas de show lhe deviam “Royaltes” por usar sua área. Mas sabia que seu filho e sua mulher estariam assistindo a sentença e se não o virem lá, podem pensar besteira o que poderia causar muitos problemas. Ele não queria isso. Assim deixou sua limusine seguir seu traçado original.

Quando chegou ao tribunal a sala estava vazia, parecia que houvera algum contratempo que atrasou o reinício. Mas ao que parece já estão vindo; os guardas retornaram a sala e tomaram seus lugares.

 

VIII

 

A tarde se iniciou e as bombas começaram a explodir sobre a sombra do caos. Um lutador, aquele que anda por trás das leis, da justiça, seja da terra ou do universo,  se encontrara com o refém, refém da própria vida e de suas escolhas. Para ele não haveria redenção, não importasse a sentença. O que falava mais alto era o básico, a animalesca força do instinto de sobrevivência e proteção da cria. A proposta ainda estava de pé e ele não a recusaria. O promotor teve uma conversa com ele, coisa de algumas palavras.

— Você pode melhorar muito a sua situação, só depende de você. Faça a escolha certa. —  Disse ele, deixando uma pasta sobre seus braços.

 

*****

 

Enquanto ele passara pelo corredor que ligava a porta principal ao topo do tribunal, em meio a todas aquelas pessoas que aguardavam sentadas por sua sentença. Alguns desejavam a sua morte. Alguém chegou a vomitar quando ele passou.

Mas ele não se importara com qualquer coisa dessas, seus olhos estavam fixos nas três crianças na primeira fila, abraçando e consolando sua mãe que chorava. A família ali sofria, e ele desejou a morte, se culpando por tudo que fez seus amores passarem. “Tudo que fiz foi por eles, mas, não fiz certo. Começarei a fazer a coisa certa a partir de agora.” A corrida para ele já estava perdida, mas não havia porque de não completar o percurso e iniciar sua redenção.

E o advogado chegou ao tribunal com a derrota puxando seus pés. Seguido pelo réu que entrou arrastado pelos guardas, meirinhos.  Na frente da mesa do Juiz, ele acenou com a mão e o juiz abaixou a cabeça se aproximando centímetros de si, o advogado soltou algumas palavras no seu ouvido e retornou a mesa.

 

O juiz rasga a sua sentença e de pé diz:

 

— O réu, qualificados nos autos, foi regularmente processado e, ao final, pronunciados como incursos. No tocante ao crime de homicídio, por oito votos a um foi reconhecida a materialidade do fato e a autoria. Foi afastada a tese de participação de menor importância. Assim como a qualificadora do motivo torpe. Sentenciando-lhe a quinze anos de prisão em regime fechado. — Falou e manteve-se de pé enquanto lê o resto da nota. Algumas pessoas gritam. Umas de aprovação outras de decepção. —  Ainda em relação ao réu, na segunda e terceira série de quesitos. A segunda;  quanto ao crime de ocultação de cadáver, qualificação e premeditação, e execução; a terceira; quanto ao reconhecimento, delato e redução de pena. Haverá outro instancia a fim de continuar o julgamento, outras informações deveras importantes para o caso, para a segurança da sociedade publica civil e manutenção da ordem no país. Não poderá ser negligenciado. Dos novos pontos,  por contribuição deveras importante ao caso, quanto;  ao mandante do crime como o Sr. Rony da silva Cabral; seus motivos como Preservação de um esquema, visto que a vitima estaria a se por denunciante; e delação do esquema de trafico de drogas, cujo Sr. Rony é chefe dirigente das operações ilícitas que utilizavam a revendedora da vitima para transportar a mercadoria. Todos os pontos serão mais bem explanados em breve. O réu aguardará em regime fechado o julgamento.

 

IX

 

— Recebi a pouco a informação que o Sr. Rony esta presente neste tribunal. A seção esta encerrada, e passo a voz para o Promotor.

— Devido à natureza das novas informações e o rumo que o caso tomara. Solicito, agora, que os policiais o acompanhem até a delegacia para tomarmos o seu depoimento novamente. Assim como todos os outros envolvidos no crime, e que não haja interação entre eles.

— Isso é uma reviravolta em tanto, todos no tribunal estão apáticos. È importante frisar que ele é o pai do garoto mais falado do ano, que trouxe tantos olhares para este julgamento. Isso explica muita coisa. — A caixa de som da televisão lançavam as ondas em direção a André e Marcia que sentam juntos no sofá. As cores iam se desfazendo à medida que os olhos de Marcia se enchiam de lagrimas. — Esperem! O Sr. Rony esta fugindo do tribunal. — A mulher gritou enquanto ele passava pela porta seguido de perto pelos policiais. A emissora tinha um correspondente do lado de fora, a imagem foi automaticamente transferida para lá. Fábio estava em pé com o microfone em mãos quando Rony passou correndo por ele.

Marcia agonizava. Ela alternava olhares entre a TV que frisava o rosto de Rony e André sentado quieto ao seu lado. Ela sofria, por não saber mais em quem ou o que acreditar. Qualquer opção que escolhesse implicava em algo horrível. Olhando para André havia duas opções a se escolher.

Na primeira o garoto era apenas mais uma pobre, e inocente, criança que fora manipulada há propagar certa ideia e chegou um ponto em que ele acabou acreditando nisso, esse manipulador poderia ser Rony; em uma manobra, inteligente, como sempre faz. Ela fecha os olhos e imagina tudo que passaram juntos, ele era um traficante e tinha feito muita coisa ruim na vida, mas pensando em Rony fazendo uma coisa dessas com seu próprio filho ela simplesmente não acreditava.

— Ele sempre quis um herdeiro, e trata-o desde sempre como um rei, até por cima de mim passa para protegê-lo. — Disse olhando as imagens na tela e limpando as lagrimas. — Isso não pode ser verdade. Deve ter algum engano. —  Ela encarou aquilo como uma máxima, e, imediatamente, um sentimento de pena eclodiu no corpo, primeiro por seu marido está sendo perseguido na rua, depois por seu filho ter sido enganado durante todo esse tempo.

Assim ela olhou para o lado em busca dele, para abraça-lo e conforta-lo, mas o garoto não estava mais lá. Revirou a cabeça para todos os lados e não viu nem sombra no garoto. Deve estar no quarto chorando, pensou fechando os olhos. Logo em seguida sentiu uma fisgada em sua cabeça.

 

X

 

As imagens foram se formando em sua cabeça e uma dor atormentava sua nuca, naturalmente tentou passar a mão e verificar, mas não conseguia. Sua visão ainda estava nublada e não entendia porque não conseguira suspender as mãos.

— Oi, já esta acordando?

— O que aconteceu? — Perguntou, ao reconhecer a voz de André. Sua vista começara a limpar e aos poucos foi aceitando o fato de estar amarrada a pilastra da casa com as cordas do cachorro. — Porque estou amarrada?  — perguntou ainda meio tonta.

— Espere, espere; Ele esta chegando. — André correu na mesa e pegou sua arma. Empunhando-a depois de destravar e verificar se esta carregada fica de pé, segurando a arma nas costas, a espera de Rony que sobe as escadas.

Ele subiu na vagareza, não adiantava mais correr, estava em casa e era o primeiro lugar que a policia iria lhe procurar. Passava a mão na camisa que fedia absurdamente pelo vomito que soltou ao ver o seu querido parceiro do crime desde quando criança sendo preso. E ainda como réu de uma acusação feita pelo filho. Ele tentava juntar as peças com a ligação estranha que recebera anteriormente. E algo retornou de sua memoria: “Mas nós retiramos aquela fita, a gravação.” E a chama da duvida acendeu, ele dera a fia para que o Fábio a levasse e guardasse caso precisasse dela algum dia. “Porque ele faria isso?” Apalpou os bolsos em busca do celular para telefona-lo, mas não acha. Caíra na rua. Termina de subir as escadas correndo e se depara com Marcia e André na sala.

— O que esta acontecendo aqui? — Pergunta atormentado e vendo sua vida se despedaçar por completo diante de seus olhos. Sem pensar muito corre para ajudar Marcia, mas é surpreendido por André, que lhe aponta a arma. André solta uma risada sarcástica e aponta a arma para Marcia que chora ao finalmente entender a segunda opção.

— Para onde ia com toda aquela pressa? — Perguntou André. Realmente interessado na resposta.

— Procurar um telefone, mas o que diabos você esta fazendo? — Perguntou apático.

— Você sabe mais do que acha. — Respondeu apontando para a Tevê com a outra mão.  A imagem de Rony fugindo ficava reprisando.  — Agora você me deixou curioso, porque aquele celular era tão importante?

— Só sei que o que você esta fazendo é um erro. — Falou custando a acreditar que realmente o garoto falava a verdade.

— Talvez, mas sabe; Para mim não há mais muita importância para isso. — Ele apontou a arma para a cabeça de Rony novamente. — Ajoelhe.

— Não! Não faça isso André, por favor. Posso explicar. — Falou enquanto envergava os joelhos vagarosamente.

— Meu nome não é André. A vida é uma coisa interessante, e todos os seus mistérios também. Da primeira vez, que me enganou e colocou minha cabeça a premio não odiava ninguém; na segunda vez, busquei vingança. E você conseguiu me foder outra vez! O que você não sabe é que consigo me lembrar do rosto do autor do disparo e revi-o hoje no tribunal. — Ele respira fundo e reflete sobre o jogo que é sua vida nas mãos do destino. — Eu realmente espero que na terceira vez Deus e o destino se acertem e me consigam algo melhor, pois desta vez me senti insultado por eles. — Caçoou. — É ter alguém pra culpar, que não a si mesmo.

— Me ajude Rony! — Exclamou Marcia.

— Mate-me, mas não faça mal a ela! — Rony implorou, enquanto chorava ajoelhado no chão.

— O que buscava era vingança, mas agora isso se tornou mais para mim. Vou usar isso como uma mensagem para o universo! — Ele olha para o céu e dispara.

— Estamos quites.

 

XI

 

— Olá. Acabaram de assistir “Off Brasil” e a partir de agora, comigo nas noticias da cidade e região. — Fábio olhou para a outra câmera no estúdio. — O final trágico no caso da reencarnação que abalou o país: Rony acusado de mandatário assassinou o filho, que usou como bode expiatório, e a mulher antes de se suicidar. Mais detalhes depois do intervalo.

Ele deixa a sala para tomar uma agua e encontra o promotor na sala.

— Poderíamos fazer isso mais vezes.

 

 

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