Bárbaro – O Pistoleiro da nova Era | I a III

Bárbaro, O (2)

 

A nova era

1

O Bárbaro inspirava a cidade, sua fama estava em todos os lugares. Os pistoleiros eram distintos e carregavam sua renome nos coldres. Seu verdadeiro nome era familiar a poucos, e os poucos que uma vez o ouvira estão mortos. Apenas suas façanhas mantinham-se escorregadias nos becos da historia. Nem mesmo ele ousou conhecer-se a si mesmo.

O mundo passou por apuros desde a primeira aparição de um ser humano; sempre alguma coisa acaba saindo ferida. Mas eles não fazem por mal, aliás, seus desejos são sagrados. Em algum momento desta historia surgiu uma laia temida por qualquer um que corresse da morte e não havia porta que não se fechasse á sua chegada.

As brigas não se importam com pedaços de madeira, entram assim mesmo.

O Bar, que não tinha porta, só uma passagem, era a entrada para aqueles de casacos de couro escuro e bota barulhenta. Tomavam do mais caro, sempre a espera de algum metido tira-lo do sério para mostrar-lhe a que veio. Afinal, vivia de sua fama, vendendo o seu nome. Não demorava e subiam as escadas que se encurvavam por cima do balcão e dava num puteiro. As putas se engraçavam, com dentes quebrados e marcas de cigarro, em busca de alguma moeda de ouro. Não importando o tamanho do instrumento do pistoleiro, no outro dia tratava de sair mancando do quarto.

Para as outras verem. Gabar-se-ia por semanas, saísse com vida, assim o pistoleiro quisesse, ou não.

Seu trabalho poderia estar alí mesmo ou a cidade ficara em sua passagem, apenas. O de certo era a execução.

 

2

Por fronteiras de estados, países e continentes suas historias e fama galopou. Tremiam ao ouvir tais historias. Até que não temiam mais.

Os pistoleiros se resumiram a historias e desenhos em livros velhos.

Agora havia carros, mais velozes que cavalos, snipers, mais mortais que pistolas e colarinhos mais amedrontadores que canos largos e calibre grosso. Chegou ao tempo de haver botões, botões, flácidos e inertes, mais ameaçadores que o olhar sanguinário de um pistoleiro; Por baixo da aba do chapéu, marcando os últimos movimentos da próxima vitima, os olhos se fixavam no oponente assim como os pés no chão e a mão no coldre.

Do mesmo modo que os fatos históricos arrumavam um jeito de se repetir, os Pistoleiros ressurgiram. Eram poucos; resquícios de uma velha guarda que nunca escapara de um buraco no deserto. Renovados e ainda mais brutais.

Um deles agiu naquela noite

 

3

Os botões cintilavam um vermelho tenebroso; muitos poderiam morrer no outro lado do mundo somente comprimindo aquele botão e acionando um dispositivo elétrico muito simples. O círculo disforme de homens rodeava um senhor de áurea superior que observava aquela maleta com pesar, mas com ansiedade. Assim como um menino observa uma lagartixa antes de acerta-lhe uma pedra.

Bárbaro estava sentado no banco da praça e aquela imagem se repitia varias vezes em sua cabeça. Botão, sorrisos largos, fim do mundo. Aquela jaqueta estava incrivelmente pesada. Vestia negra como uma penumbra ao tempo de tempestade, raios e trovões e tornados e ventanias cantando sua chegada. Do mesmo modo, o banco tremia a cada tremor do destino, parecia-se que se aterrorizava com algum caminho que não queira seguir. As arvores balançavam, a cada assoprar ansioso que Deus soltava pelas ventas, deixando algumas folhas caírem. Balé. Chão. Alguns raios abalavam a cabeça dos homens que hoje morreriam. Para eles seu reflexo estava mais brilhante, sua esposa mais bonita, os filhos mais obedientes, maior o salario, assim como a bela luz antes da destruição da descarga elétrica.

Aquela jaqueta estava pesada. Um soldado que a visse naquele momento não acreditaria, sempre esteve fortemente armado, principalmente quando no oriente médio, mas aquilo o amedrontava. Alguém com aquele tipo de armamento ou estaria louco ou conhecera loucos o suficiente para acreditar ter a razão, mais ainda, o aval dos céus. Ele podia sentir.

Mais um trovão, alguém claramente discordava.

Bárbaro tomou aquilo como como o apito inicial, a trombeta anunciando o inicio da chuva de fogo, o motor explodindo o primeiro pingo de gasolina. Neste momento seu estomago embrulhou, sentiu o gosto de terra, sentiu o sol queimando alegremente todos que não mereciam ver toda sua beleza. Sentiu o amor. E sentiu ódio.

Levantou-se já com as mãos a frente do corpo, com o impulso das pernas já iniciou a caminhada, em linha reta, em direção ao prédio em um ritmo forte. Aumentou as passadas gradativamente, a adrenalina corria em seu corpo, suas veias bobeavam tensão a cada passo. O botão já poderia ter sido apertado. Não viveria com isso.

Aquela jaqueta pesada. Bárbaro carregava em seus bolsos e compartimentos toda munição que julgava necessitar para carregar sua pistola Colt, que ia à mão, e todo o amor cujo botão ameaçava dar com a descarga do universo. Seu mundo iria para o esgoto. As munições, em tambores, cheios, em longas faixas, enroladas ao corpo, penduradas na jaqueta. Se abrisse aquele zíper e, de peitos abertos, se mostrasse as pessoas que passavam no movimento centro as cegariam. O brilho do sol intimidar-se-ia com todo aquele dourado permutante, sagaz, Pessoas desmaiariam. As balas criavam ondas, níveis e camadas, não havia falhas. Havia munição para uma guerra.

A imagem dela aparecera no lugar do reflexo de bárbaro, exatamente quando ele olhou-se no espelho a ultima vez antes de empurrar a porta e entrar no prédio. Lagrimas tremiam á escorrer pelo seu rosto, engoliu-as a seco e continuou.


Marcos G Plymouth

Anúncios