Música é Poesia #2

Construção, de Chico Buarque:

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado

Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir
Deus lhe pague

Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça e a desgraça, que a gente tem que tossir
Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair
Deus lhe pague

Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir
Deus lhe pague

Composição: Chico Buarque
Na sua “Crítica da Razão Prática”, o filósofo alemão Immanuel Kant defendeu a tese de que, quando uma coisa tem preço, pode-se substituí-la por outra equivalente; mas quando uma coisa está acima de qualquer preço, não permitindo equivalência, significa que ela tem dignidade. A canção “Construção”, de Chico Buarque, faixa do álbum homônimo de 1971, insere-se nesse contexto. Não porque o compositor tenha pretendido fazer uma canção sobre a filosofia moral kantiana, mas sim porque se trata de uma crítica contundente à situação do operariado brasileiro durante a década de 1970. Em “Construção”, Chico Buarque denuncia a falsa promessa do “milagre econômico” brasileiro, o engodo com que a ditadura militar mascarava as péssimas condições de vida do trabalhador, desumanizando-o, tornando-o um meio (uma engrenagem) para um fim (o crescimento econômico). Em estrofes cuidadosamente pensadas, alternando palavras conforme muda o estado psicológico do protagonista, Chico descreve a saga de um operário da construção civil. Pressionado a vender sua mão de obra em condições de trabalho indignas, ele sai de casa para trabalhar ciente de que vai aos andaimes como quem vai ao encontro da morte. No final, morre como um pacote, atrapalhando o tráfego e o público. É que esse trabalhador não tem dignidade, tem preço.

Não há “donos da poesia”. Assim, pretendo desmitificar certa concepção elitista, infelizmente perdurando atualmente, de que poeta é Drummond, Cecília Meireles, Ferreira Gullar etc. Não há bom ou mau poeta. Há, simplesmente, o poeta. Se é poeta, é “bom”. A própria palavra, poeta, já identifica, já evidencia. É aquele que produz signos novos, por meio das diversas relações entre as palavras, frases e orações. É aquele que, subvertendo o sistema lingüístico, cria, recria, inventa, enriquecendo esse mesmo sistema por ele subvertido. É alguém que traz a novidade, que produz sob a chancela do novo, do inusitado da expressão.

Este poema, além de sua extraordinária construção artística, reflete uma face trágica do homem, visualizado num momento de vida (em “construção”). Mas, ao construir, o homem é destruído por todo um sistema desumano, por toda uma concepção egoísta. Passa por um processo de coisificação, desde a primeira estrofe

Referencias:

1- http://www.revistabula.com/Por Rafael Teodoro                                                                                                                             2-http://www.filologia.org.br/Renata Melo Leon (UERJ)

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