Os bons e maus conselhos de Stephen King para jovens autores | G1 – Pop & Arte – Máquina de Escrever

Não sou exatamente um fã de Stephen King –  com quem meu maior laço é gostar da adaptação para o cinema de “O Iluminado”, do Stanley Kubrick (e acho que isso tem mais a ver com o cineasta que com o escritor). Mas, como me recomendaram muito a leitura de “Sobre a escrita – A arte em memórias” (Suma/Objetiva, 256 pgs. R$ 38,90), resolvi conferir. Trata-se de um misto de memórias, com reminiscências de uma infância incomum, o problema com o álcool e um acidente quase fatal, em 1999, que resultou numa experiência de “quase-morte”, entre outros temas; reflexões mais ou menos banais, mas honestas, sobre a atividade literária; e um guia de autoajuda propriamente dito, no qual King resume e apresenta seu “método” para os jovens autores.

De forma objetiva e pragmática, Stephen King relata o início de sua trajetória profissional, inventaria os livros e filmes que o influenciaram e discorre sobre seu processo criativo, dedicando atenção especial aos acontecimentos que inspiraram seu primeiro grande sucesso, “Carrie, a estranha”. E entrelaça esse relato com uma espécie de oficina sobre literatura, citando H.P.Lovecraft, Ernest Hemingway, John Grisham e Tolkien, entre outros autores que, aparentemente, têm pouco ou nada em comum. No final, ainda dá algumas dicas sobre as melhores maneiras de entrar em contato com profissionais do mercado editorial – que não são muito úteis no Brasil, onde as regras e práticas são outras.

Leia aqui um trecho de “Sobre a escrita”.

Como relato confessional e caixa de ferramentas para jovens autores, “Sobre a escrita” é um livro bacana, com anedotas pessoais reveladoras e alguns insights úteis sobre a atividade literária – sobretudo numa época em que a digitalização permite a qualquer jovem se considerar um escritor (o Facebook está cheio deles: “Fulana de Tal, autora”…). Não vai muito além disso, mas vale a pena ler. Por outro lado, impliquei com algumas das regras apresentadas por King a esses aprendizes de escritor. Selecionei e comento a seguir alguns de seus conselhos, bons e ruins:

1)     Escreva para si próprio; só depois pense no leitor.
Com base no que tenho lido da nossa recente produção literária, esta regra é seguida à risca. Um traço distintivo de boa parte da ficção contemporânea brasileira é escrever para si mesmo – ou, no máximo, para os coleguinhas. Ou seja, busca-se, quando muito, o reconhecimento dos pares, não do leitor. “Escritores precisam olhar para si próprios”, escreve Stephen King.  Acho que este é um mau conselho, pois contribui para gerar autores autocomplacentes e pouco preocupados em agradar ao leitor, movidos pela convicção de que literatura é egotrip, e de que suas angústias pessoas bastam para render um bom romance;

2)     Cuide bem do começo do livro. Escreva uma palavra de cada vez.
“A primeira linha deve convidar o leitor a entrar na história. (…) Quer se trate de uma pequena história de uma página, ou de uma epopeia como ‘O Senhor dos Anéis’, o trabalho é sempre feito uma palavra de cada vez.” Certíssimo. A boa literatura se faz com palavras, não com bons sentimentos ou boas intenções. A boa literatura é artesanato e cuidado com os detalhes: cada sentença tem que cumprir sua função. Muito do que se publica hoje no Brasil, mesmo quando é bom, tem cara de rascunho escrito às pressas. Romances são lançados antes de estarem prontos. Escritores são cultuados antes de estarem maduros.

3)     Pare de ver televisão; em vez disso, leia o quanto for possível.
Para mim, pessoalmente, tem sido mais estimulante e útil, do ponto de vista criativo, assistir a séries como “Mad Men” e “True Detective” – ou a brasileira “Magnífica 70” – do que ler romances contemporâneos. A TV é hoje o lugar onde as narrativas avançam, onde a estrutura e a linguagem são levadas a sério, onde existe preocupação com o resultado e onde são produzidas obras para adultos, não somente em termos da força do conteúdo, mas também por tratar de questões emocionais e existenciais profundas. Para quem quer aprender a escrever bem, ver cada vez mais TV pode ser muito útil, basta escolher bem o quê assistir.

4)     Não utilize a voz passiva. Evite os advérbios. Fazer parágrafos.
Não se deve menosprezar esse tipo de conselhos técnicos, ainda mais vindo de um autor que vende milhões de exemplares de seus livros. Muitos jovens autores começam querendo reinventar a roda antes de entender a função e os efeitos das normas e das convenções da língua. Stephen King acerta quando diz: “Os escritores tímidos gostam da voz passiva pela mesma razão que os amantes tímidos gostam dos parceiros passivos. A voz passiva não corre riscos”; ou “Os advérbios não são seus amigos”; ou ainda: “Os parágrafos são tão importantes no plano visual como no plano do significado”. Correto (aliás, tentei evitar o uso de advérbios nesta resenha!)

5)     Não tente roubar a voz de outra pessoa.
“Quando você tenta imitar o estilo de outro escritor, não produz nada além de imitações pálidas. Você nunca deve tentar reproduzir a maneira como alguém se sente e experimenta algo”. Certo de novo. Os jovens escritores costumam cair na armadilha de imitar Guimarães Rosa, ou Clarice Lispector ou Rubem Fonseca – ou, em outro nicho, a pior literatura açucarada – e nunca encontram a própria voz. Estilo não se copia.

6)     Não há como transformar um escritor ruim em um escritor bom, mas há como transformar um escritor razoável em um escritor melhor.
Dispensa comentários.

Complementando “Sobre a escrita”, Stephen King lançará em novembro o livro de contos “The Bazzar of Bad Dreams”, com 20 histórias e a explicação de como cada uma delas foi criada.

Fonte: Os bons e maus conselhos de Stephen King para jovens autores | G1 – Pop & Arte – Máquina de Escrever

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