Uma Loja Milenar – Capítulo III

Comece do início aqui; Capítulo I

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III

— Tem algo errado com este pessoal. Não é possível! Como que pode um negócio desses? — Nanely falava na área de serviço da Grande casa. Os empregados haviam se reunidos para discutir o que acontecera.

— Loucos somos nós que fomos lá limpar aquela bagunça. — Exclamou um dos cozinheiros. Até agora seu corpo coça de agonia. Não era um entusiasta da Senhora Fin, sentia que algo assim ocorresse.

— E que outras opções tínhamos? Horas atrás não vi você reclamando na frente dos outros. — Ela também vivenciara o pior episodio de sua vida calada. Temia o que lhe poderia acontecer caso desobedecesse às ordens. — Mas porque eles tinham de se trancar lá dentro? Aquele lugar pena por desprezo. Aquele cheiro de sangue me enoja. Nunca mais conseguirei olhar aquelas paredes novamente sem lembrar-me dos pedaços da Senhora fin grudados nela. O que diabos devem estar fazendo?                                       — Aquele miserável do Thomaz só sabe mandar. Alguém o viu lá dentro no inferno conosco? — Disse uma passadeira, crente em si de estar longe de olhares de Thomaz. Mas as paredes têm ouvidos e o mato tem olhos.

Thomaz era o Mordomo mais velho da casa. Já estava na casa muito antes de qualquer um ali chegar.

— Aquele cavalo do cão. — A instigada Nanely resmungou.

Atrás dela a figura odiada, um senhor de idade com barbas brancas e ralas, apoiada em uma bengala ouvia a tudo quieto.

A fitou quando se virara. Seu coração bateu mais forte, lembrara-se do que já viveu naquela casa e uma raiva emergiu de seu interior. Queria distancia daquilo tudo, e agora já poderia se arriscar por isso. Não aquentava mais viver ali.

— Nanely, vá atender a porta. Não fale nada só traga-os a mim. — Disse Thomaz.

— Mas não ouvi ninguém batendo a porta. Ou a campainha.

Todos seguraram a respiração à espera de um sermão, ou algo muito pior. A bagunça que acontecera realmente agitou os ânimos. Era a primeira vez que alguém contestava o Thomaz. Não demorou dois segundos e a campainha toca. Nanely se gelou até os pés. Faltou pouco pra alguém enfartar.

— Estarei na sala de visita. — Disse Thomaz seriamente, se virando e sumindo depois da porta.

A campainha toca mais uma vez.

Nanely esta a passos longe da porta. “Isso sim é o que podemos chamar de casa. Com direito a todas as letras e silabas”, ouviu através da porta. Duas viradas na chave, gira o trinco e vira a maçaneta; Vanessa e Caco estão parados a porta. Como disse Thomaz, Nanely nada diz, vira as costas e começa a andar. Vanessa e Caco entendem que devem segui-la e o fazem. Já estão perto da sala agora.

Risos.

Vanessa deixou escapar um sorriso constrangedoramente audível. Caco a olhou de lado e segui andando. Provavelmente não vou mais levar uma bronca pelo jantar, pensou.

A historia dos países é ensinado nas escolas, para aqueles que possam pagar, e ficou há muito tempo para trás. Não há mais fronteiras entre países, nem direitos civis, humanos, de qualquer tipo. Assim como a segurança era mantida sobre rédea curta pela Cleaves Corp a justiça era conduzida pela Fist corp.

— Algo engraçado, Senhora? — Thomaz perguntou em sua postura ereta apertando as mãos nas costas.

— Não, nada. Desculpe. — Engasgou-se.

— Podem se acomodar.

Algumas cadeiras estavam disponíveis.

— Então, como que não saiu nenhuma historia sobre o caso nos noticiários? — Disse Caco gentilmente, sentando-se numa das cadeiras. Vanessa permaneceu em pé ao seu lado.

— Acertamos com a policia para manter o sigilo sobre o caso. A residência é particular, ninguém entraria, e nossos serventes são obedientes. — Puxou uma cadeira. Você só pode ser o herdeiro dos Fins.

— Penso que sim.

— Gosto de você. Mas não dela. — Analisou Vanessa dos pés a cabeça. — Ela não era pra estar aqui.

— Faltou comunicação da parte de sua atendente robô. — Ele tentou levar na brincadeira. Não estava em posição de discursão. Sua casa era a muitas quadras daqui. E alguma coisa o fazia pensar se sua vinda foi uma boa ideia. Às vezes a necessidade ofusca a razão do ser humano.

— Bem, nunca tivemos registro algum seu aqui. Mas deixe-me fazer-lhe algumas perguntas. Primeiro: Quão bem você se lembra da sua infância?

— Na maior parte do tempo delirando em um pobre orfanato da cidade.

— Parece que você foi expurgado da família. Mais uma questão surgiu-me: Como o sobrenome Fin foi parar na sua identidade? Você teve algum problema em sua vida?  — Ele parecia brincar com Caco. Vanessa percebera isso, mas manteve-se quieta. Os solados de seus pés começaram a coçar sutilmente enquanto se manteve em ao lado do Caco.

— Uma carta estava comigo quando bebê. Esse nome estava nele. Fui praticamente obrigado a carregar este nome. Que tipo de problema você se refere. Sabemos que problemas são inerentes a vivencia humana, não? Quem cresce sem eles? — Caco se sentira constrangido de alguma forma com a pergunta, fazia enervante a si. Se assim é, algo a mais o tem.

— Senhor, tenho muitas razões para acreditar que o senhor esta ciente de que tipo de problema estou falando. — Sua face se manteve neutra. Thomaz falou quase o incitando a verdade. Suas sobrancelhas cheias escondiam mais do que seu sorriso poderia ocultar.  Com a mão no queixo ele observa a luta de Vanessa para conseguir coçar a sola do seu pé ainda calçada.

Caco desviara o olhar pela primeira vez desde que chegou à residência. Se remexeu na cadeira e cruzou as pernas. Thomaz percebeu sua intenção em querer desviar o olhar de Vanessa. Sua coceira ultrapassou o limite do admissível.

— Esta se sentindo bem senhora? — Perguntou Thomaz, em tom peculiarmente irônico. Vanessa assentiu com a cabeça. — Leve-a ao toalet, Nanely.

A mulher começou a andar e Vanessa a seguiu.

— Não temos muito mais a falar. Meu papel com você já foi cumprido. Siga-me. — Thomaz levantou e saiu andando, se arrastando com sua muleta.

— E quanto a Vanessa? — Caco tentara visualizar o banheiro através das paredes.

— Ela vai ficar bem. — Disse Thomaz sobre os ombros e continuou sua lenta caminhada.

A casa era inteiramente iluminada com velas, não era escura, mas escondia algo nos canos sombrios. Eles subiram as escadarias. Largas, de madeira. No primeiro andar um longo corredor, preenchido dos dois lados com quadros, pinturas e fotografias. Muitas para se contar. Poucas para se entender. Em uma delas um denso bosque esverdeado de limo e material em decomposição, animais conviviam em harmonia com seus parentes mortos, e os urubus sobrevoavam alegremente o céu rubro do entardecer. Passaram por um tapete, parecia grande e caro, estava enrolado em forma roliça, coberto com jornais velhos presos com cordas. No fim do corredor uma grande porta “fechada” a saída e dois homens faziam a guarda dela.

Três batidas na porta foram o suficiente para ela se abrir imediatamente. Lá dentro todo o comitê aguardava ansioso.

— Bem vindo. — Falou um senhor que estava parado no meio da sala, envolto de mais quatro pessoas.

— Olá. — Respondeu Caco. Ele olhou para trás na procura do mordomo Thomaz, mas ele sumira. A porta já estava fechada e todos da sala o encaravam.

— Se aproxime Claudio. — Falou um rapaz com uma cartola na cabeça. Parecem que todos aqui já me conheciam, pensou. Que está acontecendo?


—— Marcos G Plymouth

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