Uma Loja Milenar – Capítulo II

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II

— Isso nada mais é que uma aposta, filho. Seu medo sendo transposto pela sensação de segurança, quem não escolheria isso? Pois, se você não perde nada, porque não arriscar? Qual é, portanto, essa abominação, inaudita no Céu e na terra?
Caco soltara essa sem pensar nas consequências. Pouco lhe importava o que viera, a muito vivi apenas do presente, dentro de sua cabeça. Os outros ocupantes da mesa se remexeram desconfortáveis. O bar inteiro percebe sua arrogância, mesmo pelo tom de voz. A noite de Salvador não é mais a mesma, pouco restou do besteirol entre um gole de cerveja e outro, a manutenção da vida importa, ainda mais que a própria. Pela parede de vidro podia-se ver a baia de todos os santos, o pouco de sua boemia que restara caia em desgraça a medida que a depressão toma conta da alma dos mausoléus abrigando as almas de outros mulambos que viviam, mas o futuro os tirava a vida. Hoje o futuro se alimenta destas almas, enterrando outras mais.
— Não liguem para essas baboseiras que o Caco fala. Acurado nunca foi, não passa em sua cabeça, não trata o que fala com cuidado.
Essa que falou constrangida foi Vanessa, namorada de Caco. Essa frase já vem pronta em sua cabeça e já calejou de tanto uso.
— Mais não é bem a verdade?
Ele continuou com sua apresentação na mesa da pequena lanchonete. Parecia esta se divertindo bastante. Aquele sorriso que não saía de sua cara, junto com seu modo sarcástico de falar cintilava por todas as mesas. Vanessa passou as mãos pelos cabelos, desconfortada com a situação, deixando uma mecha cair sobre seus olhos. Uma tentativa desesperada de se esconder por trás delas.
— Não se trata bem de apostar. È uma escolha. — Falou um dos homens que os acompanhavam a mesa.
Os dois que estavam sentados à frente de Caco e Vanessa; pareciam dois judeus usando uma faixa bordado uma suástica. Com todo aquele requinte, etiqueta e elegância pareciam protos para uma festa de gala, ou no mínimo a presença em um Restaurante de luxo. Seus Blazers, Sueter e Blütcher pareciam desapropriados com a pizza fria que cintilava na mesa em companhia de cervejas baratas e batatas fritas. Em qualquer ambiente em máximo, formal, e, relativo elítico, elegante seria o centro das atenções e dominariam a conversa, mas não ali.
Todos ali sabiam da sua real situação, viviam tendo que guardar este rancor consigo, a verdadeira razão de manter esta insanidade é a necessidade do medo, da imposição, temiam o mundo fora das gaiolas. Caco parecia disposto a balançar a estante para ver quais fotos caem. Não se importava o mínimo em manter a corte e ajudar sua garota.
— Então você é musico? A Vanessa nós disse que estava preparando um contrato com uma gravadora, uma daqui de salvador mesmo ou lá nas bandas do vale? — O outro, loirinho, disse rapidamente mudando de assunto.
— È, sabe como são as coisas, a gente tem que valorizar o nosso trabalho. Não adianta aceitar qualquer um contrato, certo? — Caco Falou aumentando considerável e gradativamente seu tom de voz. — Mas e vocês, continuam extorquindo até a gola enquanto brincam de escolinha, de vencer?
— Não é porquê … Tornaram-se todos tão ciumentos do seu eu que todos construíram templos e monumentos e veneram a si. Surgiram escravos voluntários, a moral das ovelhas não os submeteu ao seu gosto. Causa de grandes guerras.
Um toque genérico de celular soa do bolso da calça Jeans de Caco, que atende, sem titubear, enquanto fala o rapaz. Nem mesmo olhou o numero de que o chamara. Parecia esperar por isso.
O rapaz, quase engasgando, soltou todo o ar que tinha assegurado em seus pulmões para utilizar na fala, coçou suas sobrancelhas um pouco e esfregou os olhos antes de olhar com angustiado para seu amigo. Vanessa só lamentava, mas desejava fortemente que aquela fosse uma chamada de urgência. Coisa difícil de acontecer na vida de Caco. Mas hoje ela estava relativamente com sorte.
Dizia uma voz mecanizada no outro lado da linha:
— Boa noite, O senhor é o Claudio Fin Dwornik Junior?
— Sou eu mesmo. — Disse Firmemente já pronto para desligar caso sua suspeita quanto a marketing de uma empresa de cartão de credito de confirmasse. — Tenho um informe para o senhor. Sua avó faleceu esta manhã. Minhas condolências. — Continuou a voz. “Mas eu não tenho nenhuma avó. Será um trote?” Pensou, mas gostaria de manter esta conversa o máximo possível.
— Nós também achávamos isso até agora, não sabíamos, mas o senhor estava muito bem especificado aqui. Quando lemos o testamento e achamos muito estranho. No entanto, ela é um ser humano, e como tal merece ao menos um mínimo de respeito nesta ocasião. Não estou certo? Ainda se for confirmado, poderá herdar tudo.
— O que? — Caco já não sabia em qual contexto aquela afirmação se enquadrava. Apesar das possibilidades de herdar alguma coisa, não ligou muito. Pouco se importou com dinheiro durante toda a vida. Caco vivera sua vida humildemente, depois de sair do orfanato já adulto, foi direto para o mercado de trabalho. Bater pregos não era muito nobre, mas ele não se importara com isso. A tecnologia esta em um nível surreal de avanço, mas os pregos continuam sendo importantes.
— Enrica Andreani Fin Brown. È o seu nome, dona das Fist corp.
— Esta é aquela milionária? — Sua sobrancelha subiu junto com um sorriso arrasador que terminou com uma sonora gargalhada. Sua euforia era nítida. Vanessa e seus Dois convidados ficaram atentos.
— Como é possível? — Perguntou ainda sem acreditar. — Ok, e o que eu tenho de fazer? — Continuou. Sua imaginação manifestou-se, eram tantas possibilidades e em meio a pensamentos materiais começou a se perder no seu passado, na sua formação, o único objeto que o fez pensar seriamente em ir a fundo nisto foi a vingança. Se confirmado, a filha desta senhora o teria deixado na rua, a mercê dos perigos inegáveis da sociedade. O que poderia fazer com todo este poder ainda não se materializou em sua cabeça. Nesta sociedade regida por empresas, seus donos eram reis. Nesta sociedade poliarquica cada um de seus pilares era governado por uma empresa privada, seus donos intocáveis viviam acima de tudo.
— Terá que vir aqui responder legalmente e se tudo correr bem assumir o que lhe foi deixado e decidir o que fazer com ela.
— Fale o endereço enquanto anoto, amanhã o mais rápido possível estarei aí. — Disse apoiando o celular no pescoço enquanto pegava um pedaço de guardanapo e abanava a mão bradando por uma caneta.
— Não será necessário isso senhor, já mandamos um carro lhe pegar. — houve uma pequena distorção na voz da mulher tornando-a muito grave. — Ao sair de onde está encontrara um carro a sua espera. Saberá qual.
A ligação foi encerrada e Caco demorou alguns segundos para retirar o celular do ouvido.
— O que foi, porque esta cara de besta? — Vanessa previa mais um dos jogos de Caco.
— Alguma coisa com a minha avó. — Disse esticando o pescoço para avistar, sobre a cabeça de Vanessa, a janela que dava pra rua.
— Sua avó? Eu achei que você tinha dito não ter parente, muito menos uma avó. Pare com essas brincadeiras, não estou com humor para isso. — Vanessa conhecia muito bem Caco, ciente de sua transcendência desaparecida, e de sua moral própria. Ela não o controlava mais.
— Se queria sair era só falar, não precisava inventar uma desculpa dessas. — Disse um dos rapazes.
— Vamos. No caminho eu te explico. — Caco falou a Vanessa sem nenhum interesse nos rapazes.
Ele pegou pelo seu braço e a arrastou através do coffe bar em meios a resmungos de aborrecimento. Ao passa pela porta dentre todas as centenas de carros estacionados seus olhos foram atraídos primeira e unicamente por um em especial: O bucciali tav 8-32 saoutchik ‘fleche d’or’ berline estava parado com toda sua elegância exatamente na frente da porta do coffe bar. Caco sabia quão raro era aquele carro, existia apenas uma unidade, e isso o deixou um tanto amedrontado. Assim sua mente emanoou, e Caco soube que era aquele o carro, as portas do luxuoso se abriram automaticamente. Porque alguém mandaria um carro desses para a rua somente para me apanhar? Em seu momento de desconfiança ele saiu andando receosamente arrastando Vanessa, agora calada. A cabeça de Caco passou pela porta e o Motorista soltou logo o Refrão:
— Senhor Claudio Fin Dwornik Junior, poderia entrar no carro, por favor. — O homem nem virou a cabeça, suas mãos apertavam o volante do carro como se fosse voar, seu pescoço parecia pálido em um tipo estranho de cadáver.
Caco entrou no carro lentamente na companhia de Vanessa. Bach como som ambiente não amenizava o clima de terror em que o carro estava. Qualquer um que entrasse nele acharia que alguém morrera ali. Os dois admiravam a beleza do carro e ao tempo em que se acomodavam, sem antes que ela pudesse pegar na maçaneta da porta, ela tornou a fechar voluntariamente com toda força. O motorista engatou a marcha e foi até seu destino sem falar uma palavra, o contrario de Caco que tinha muito que explicar a Vanessa.


—— Marcos G Plymouth

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