Conto – Uma Loja milenar – Capítulo I

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I

— Então é isso?

A senhora estava sentada em sua poltrona centenária com os dedos cruzados acima do joelho e admirando o cano de uma Browning modelo 1900 do lado menos agradável. O Homem que empunhava a “mata-duques”, em seu estilo monstruoso, com quase dois metros de altura, não parecia um homem. Nas suas costas era possível repintar “O Colosso” com sobra. Do outro lado da sala um elegante senhor sentava-se no divã com a perna direita cruzada sobre a outra, ele espirrou a fumaça de seu grande charuto e respondeu á senhora.

— Seu trabalho aqui acabou. — Deu mais uma tragada e levantando-se continuou. — Sabe, eu gosto de você, você sabe o que fazer quando tem de tomar uma decisão. Por essas e outras que gostaria de lhe dar uma destas estatuas. Sabe, não sabíamos, mesmo com todo aquele conhecimento transcendente, que a batalha pelo isolamento conhecia a todos os anseios. Seu ponto alto, o estudo sistemático do nosso universo acarretaria na nossa existência, concebemos a Justiça e dela o vento assoprou sobe tempestades solares e mares radioativos ao milagre da essência. Somos gratos ao seu trabalho. — Parou ao lado do brutamonte e olhando diretamente para a senhora completou. — Seu tempo aqui já acabou. Pra onde vai, pode ter certeza, terá mais.

Virou-se pro outro lado, onde estava uma serie de esculturas em busto – Dez no total –, Nenhum deles se parecia. As diferenças mais nítidas eram no vestuário, pareciam estar postados em ordem cronológica e moda temporal, com exceção do primeiro da fila que se encontrava desnudo.  O senhor escorregou com toda sua elegância até o ultimo busto. Na placa de apresentação ler-se: “Como você caiu dos céus, ó estrela da manhã, filho da alvorada! Te assoprei e de você criei atração”, mais a baixo “Em Memoria de Dubghlas Kafziel Fin Genoom – ☆ 1408 ”.

— Bravos… — Disse o homem, depois se voltou para a senhora. — Não se preocupe só ira perder alguns prazeres que tens como humana. — Aplicou uma longa piscada entrando em transe e acenou com a cabeça, ainda com os olhos fechados, para seu enorme capacho.

O homem levou a arma na altura de sua orelha, se inclinando á espadelar a senhora. Ela, já aceitara seu destino, se recostara na poltrona enquanto sua mente devaneia nas suas ideias de futuro. Suas ilusões de futuro. No inicio do movimento de volta da arma, arrastada na direção da serena senhora com total ferocidade, comparada a de um animal destroçando um pedaço de carne depois de um longo período de fome. Sua Browning “Mata-duques” transformou-se ligeiramente, do punho ao gume da lamina, em uma espada para que ao final do curso seja capaz de arrancar fora o braço da senhora.

Seu sangue era denso como uma pasta cremosa, não esguichou também quando a lamina cortara seu outro braço. O tapete que cobria parte da sala ensopou logo abaixo do corpo com aquele liquido prolixo e asqueroso. Sua coloração avermelhado tinha muitas doses de preto. A Madama parecia já esta morta há muito tempo. Agora já não tinha também as pernas, com seu trabalho feito o capacho volta a sua posição inicial friamente e mantem-se sereno. Neste momento passa uma ventania que leva todos os papeis da mesa, alguns móveis começam a balançar em seus lugares. A arma do pelego, outrora uma pistola, retorna a forma original outra vez e ele desaparece sutilmente em gás, dissipando-se pela sala e esvaindo-se pelas menores fendas existentes.

As luzes se apagam por um momento. O Senhor ainda mantem seus olhos fechados quando a luz retorna; Sua feição séria deixa evidente o movimento de seus globos oculares sobe suas pálpebras, enquanto a mente ferve apitando o bule da discordância. Um som roco estranho começa a brotar do corpo da Senhora aumentando a cada segundo que se passa.

Duas faxineiras que limpavam o corredor ali perto acham estranho um som daquele tipo vindo do escritório da Presidência. Elas resolvem chegar mais perto para checar com mais confiabilidade. Ao passo que se aproximam sentem um forte cheiro vindo de dentro da sala. “Será um incêndio?“ pensou uma das mulheres e correu gritando. A porta trancada e o cheiro ainda mais forte só a deixara mais desesperada.

 — Toca o alarme Nanely. È um incêndio. — Gritou a moça para a outra faxineira que vinha no corredor. Assim ela o fez.

Logo apareceram outras pessoas para ajudar, um punhado de rapazes e moças empurrava a porta com toda força na tentativa de abri-la. O som vindo de dentro da sala já era quase ensurdecedor, mas nenhuma voz era ouvida. A população de mordomos e governantas da casa pensava nas infinitas possibilidades do que realmente acontecia dentro da sala. As discussões dentre os membros desta comunidade de trabalhadores englobavam todo tipo de suposições e achismos possíveis, mas como as ações de seus senhores deixavam muito espaço para más interpretações, as cabeças ferviam por razão.

— Pode ter alguém morrendo ai dentro, vamos, força. — Diziam quase histéricos.

Na parte de dentro do cômodo os membros da senhora repousam no chão, seu sangue escorreu pelas vielas da costura no tapete chegando até aos pés bem calçados do Senhor. Ele agora empunha uma bengala luxuosa com o gume dourado, as suas pernas perderam força por alguma razão e umas rugas apareceram em sua face. Ele dá mais um suspiro elevando seu peito e seu queixo.

Ao mesmo tempo em que seus olhos, vermelhos como brasa incandescente, abrem, Voltando a luz da visão, o torso esquartejado da senhora explode espontaneamente jogando pedaços por todo lado. A partir daí só se vê choro, vômito, gritos durante alguns minutos na luxuosa sala. Olhos e Orelhas, Peito e Nariz, todos espalhados melancolicamente pelas paredes e móveis. Simultaneamente as suas portas para a alma, a porta do escritório abre-se alegremente a despir-se na intimidade; Em uma vã visão que todos tiveram antes de caírem uns sobre os outros na entrada, puderam ver, além do horizonte, um mar vermelho em que o cômodo se tornou. No meio do lugar um charuto parecia pairar por alguns segundos no ar, depois iniciou a queda ao chão espalhando cinzas ao tombar.


——  Marcos G Plymouth

Leia o Capítulo II de VI

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